PARECER TÉCNICO
AVALIAÇÃO DO USO DE ANZOL-DE-GALHO
PELA PESCA NO PANTANAL – PARTE 2
8.17. A longa permanência de cágados e jacarés presos ao anzol-de-galho os transforma em presas fácil para a ação de piranhas (Pygocentrus nattereri, Serrasalmus marginatus e S. spiloleura), que são atraídos pelos seus movimentos de agonia ou, quando mortos por afogamento.
8.18. A alta incidência de predação dos peixes capturados por anzol-de-galho por jacarés levou ao imaginário popular que a diminuição da taxa de captura de peixes deve-se a ação predatória dos jacarés.
8.19. Não existe estudos na literatura científica que comprove a diminuição dos recursos pesqueiros devido a ação desses répteis.
9. Quanto a interação com mamíferos
9.1. No Pantanal, a pescaria com anzol-de-galho também interage com mamíferos, principalmente com a Ariranha (Pteronura brasiliensis) e Lontra (Lutra longicaudis), trazendo sérios prejuízos à conservação destes mamíferos.
9.2. Embora a pescaria com anzol-de-galho disponibilize para as ariranhas um alimento fácil e que, possivelmente, não seria consumido em condições naturais, as depredações também podem ter impactos negativos também para a atividade pesqueira.
9.3. Embora as depredações ocorram com baixa freqüência e na maioria das vezes com perdas insignificantes, as perdas podem ser significantes devido ao valor das espécies capturadas.
9.4. As depredações por piranhas (Pygocentrus nattereri, Serrasalmus spilopleura e S. marginatus) e Jacarés (Cayaman crocodilus yacare) provavelmente implica, também, em uma redução do número de indivíduos capturados, a ser disponibilizado à atividade comercial.
9.5. O número de iscas depredadas por estes mamíferos é muito variável, o que pode estar relacionado com variações no tamanho dos grupos que interagem com a pescaria.
9.6. É possível que indivíduos solitários ou grupos pequenos possam depredar as iscas contidas no anzóis-de-galho em que o número de iscas depredadas seja menor do que o número de peixes capturados e que em lances com depredação e capturas elevadas grupos grandes tenha causado a depredação.
9.7. Entretanto, informações sobre o número de mamíferos que depredam os peixes (iscas) é difícil de ser obtida devido ao grande número de anzóis-de-galho em uma determinada área explorada pela pesca profissional.
9.8. O avistamento de lontras (Lontra longicaudis) em uma determinada área é fator determinante de não fixação dos anzóis-de-galho por pescadores profissionais, como estratégia de reduzir a depredação de suas iscas. Estes animais, de hábito noturno ou crepuscular, alimentam-se, sobretudo, de peixes. Já a presença de ariranhas não preocupa os pescadores, que apesar de se alimentar de peixes tem hábitos diurnos.
9.9. O impacto entre lontras com a pesca de anzol-de-galho é um problema real, com registros em praticamente em todas as pescarias que utilizam esta arte de pesca.
9.10. Os prejuízos causados pelas depredações de iscas por estes para os pescadores como um todo, pode parecer baixas, mas para os pescadores com pouca mobilidade ou com deslocamentos limitados, estas depredações podem representar um alto custo.
9.11. Salientamos que as perdas podem ser somente com às depredações, mas a presença de lontras e ariranhas na área de pesca, faz com que pescadores mudem de área, aumentando os gastos com combustível e alimentação.
9.12. Infelizmente, muitos pescadores por não disporem dos recursos necessários para uma transferência de área de pesca, o abate destes animais passa a ser a única alternativa para a manutenção da atividade pesqueira no local.
Conclusão
Pelas características operacionais, pelo uso indiscriminado em estações e ambientes protegidos, pela baixa seletividade de captura, pelo seu impacto na captura incidental de aves e répteis e de sua interação com répteis e mamíferos, o anzol-de-galho é um equipamento predatório para uso na bacia do Alto Paraguai. O único modo eficaz de evitar a captura incidental na pesca é suspender o uso deste equipamento particularmente prejudicial ao equilíbrio das populações naturais desta bacia.
Thomaz Lipparelli
Biólogo, Mestre e Doutor em Zoologia pela UNESP
CRBio 06974-01
Diretor Técnico do Instituto Pantanal de Proteção à Natureza - IPPN
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