Vivemos em um Estado em profundas e rápidas transformações que surpreendem, deixam as pessoas perplexas, angustiadas. As mudanças aceleradas abalam conceitos, usos e costumes, não permitindo o tempo necessário para a adaptação às novas situações. É a crise. Da mesma forma, as mutações em curso na economia, no trabalho, no meio ambiente e na vida das pessoas parecem indicar que a crise não é passageira, ao contrário, faz parte dos novos tempos. Novos tempos nos quais as pessoas estão confrontadas com uma situação completamente nova, que exige respostas também novas, um novo paradigma.
Infelizmente, ainda existe uma considerável continuidade no modo de pensar os problemas decorrentes das nossas relações com o meio ambiente, porque esbarram no processo político e no pensamento econômico, resultando na medida mais conhecida: empurrar para frente e para as outras gerações os problemas que hoje estão se apresentando. O uso dos recursos naturais (incluindo a pesca extrativista) não foge desta lógica.
A preocupante realidade da pesca extrativista, se traduz não só na agressão ao meio ambiente e de má qualidade de vida dos pescadores, mas na banalização de tudo que tenha a ver com os pescadores; “as coisas são assim, sempre foram assim”.
Para nós que valorizamos a conservação da natureza como fator fundamental da qualidade de vida, essa situação sugere que devemos fazer análises que precisam ir além do “bom senso” ou de uma leitura superficial e jornalística dos fatos.
Pode-se pensar em qualidade de vida para os nossos pescadores se continuarmos desconsiderando o cumprimento das leis e usando os recursos naturais sem pesar no futuro?
Ao indagarmos sobre os limites ecológicos deste processo produtivo extrativista equivocado, nos coloca no reverso dos processos de desenvolvimento econômico, na medida em que reflete sobre os elementos-chave para pensar outra sociedade na qual o desenvolvimento necessariamente não precisa ser “destruir”, e onde a geração de valores pode ser sustentável e inclusiva.
O caminho para o desenvolvimento sustentável não é um caminho que leva de volta a formas de vida arcaicas, como alguns defendem, mas para um futuro com novas chances econômicas e sociais.
Os debates políticos que presenciamos na discussão da Lei da Pesca de MS em 2006 e novamente em 2009, foram extremamente “rasos”, desqualificados do ponto de vista técnico e sem qualquer criatividade que apontassem, a estes pescadores e à sociedade como um todo, um futuro melhor. A ausência de responsabilidade ambiental de nossos representantes políticos aparece como representação significativa da contemporaneidade e estão associadas às características das mudanças em curso.
As mudanças em curso são seguidamente vividas como uma fatalidade, sendo grande o número daqueles que, sem se referir explicitamente a este termo, redescobrem uma definição trágica da história. A grande maioria dos pescadores profissionais vive em condições de miserabilidade e manifesta um comportamento predatório frente ao meio ambiente, que concorre para uma grande “desilusão” frente ao presente. Desilusão que se expressa na valorização do passado (abundância de pescado e ausência de controle) e por uma forte apreensão quanto ao futuro. Desilusão que se manifesta, principalmente, através da atitude de resignação e passividade, tornando-os vítimas daqueles que os acolhem politicamente. Neste “caos social”, alguns políticos se nutrem, buscando seus votos eleitorais.
Os fatos e as informações revelam que seguidamente a imagem de Mato Grosso do Sul, projetada no cenário nacional, é que possui uma sociedade desorganizada e caracterizada muito mais por fracassos que por situações de realizações e sucessos. Logicamente, que as coisas não são bem assim. As pessoas estão conscientes e atentas aos problemas ambientais deste Estado (inclusive da pesca), mas a vida pessoal ou os projetos íntimos, particulares, os mantém relativamente imunizados para pensar alternativas a partir de uma dimensão mais ampla e coletiva. Se estamos estagnados é porque temos medo de mudanças.
A sociedade (incluindo os políticos) tem medo de mudanças e isto reflete diretamente no IDH (índice de desenvolvimento humano) de nosso Estado. A visão negativa da mudança é alimentada e se dá em função de algumas ausências:
1. Ausência de uma interpretação crível dos processos e dos fenômenos sociais que estão acontecendo em nosso Estado; a fragilidade das explicações técnicas dadas pelas instituições críveis (órgãos públicos, instituições de pesquisas e universidades) que, em princípio, teriam por vocação representar os diversos segmentos da sociedade, mas não convencem ou mobilizam mais as pessoas.
2. Ausência do político no sentido mais amplo, quando pensado em termos não tradicionais de participação ativa na vida das pessoas e fora da representação ritualística das eleições. Na verdade, o social e as coisas que acontecem parecem como soltas, desarticuladas, e a sensação é de que não há, e não se sabe quais são forças sociais ou forças políticas capazes de conduzir as mudanças.
3. Ausência de pensamento crítico e alternativo. O pensamento único é a expressão cultural de uma sociedade ultrapassada, cuja atitude passiva é confortada e dissimulada pelo descrédito e priori do pensamento crítico.
Na verdade, as pessoas não se sentem mais comprometidas pelas transformações, porque elas vêm de cima para baixo, dos aparelhos políticos, e não são construídas a partir do consenso ou da participação das pessoas. As reformas institucionais, tão necessárias, que visam e buscam criar novas condições de funcionamento de um sistema político se apresentam bloqueadas e não dizem respeito à vida concreta das pessoas ou da vida coletiva.
A dinâmica da degradação do meio ambiente em nosso Estado concorre para que haja a superposição de diferentes realidades sociais: na planície pantaneira a preocupação ecológica está submergida e que a solução dos múltiplos problemas sociais de base devam vir de fora; no planalto, está limitada aos processos de articulação econômica e abertura de mercado.
A imprecisão sobre a que grupo pertencemos, as hesitações frente ao modelo de desenvolvimento econômico que se projeta, o descrédito quanto às instituições públicas, ao sentimento de perda consecutiva e a sensação de impotência diante de um futuro, passa a ser a marca da referência a um passado abusivamente super-idealizado de sucesso e desenvolvimento.
Este cenário constituinte da sociedade sul-mato-grossense contemporânea mistura perda e um passivo ambiental que se forma a partir de um profundo sentimento de “menos valia”, de não ser tratado de forma justa pela sociedade. Esta percepção facilita o assistencialismo populista e a ênfase no registro da queixa e nada mais.
No entanto, neste mesmo cenário abre-se uma possibilidade social inovadora, porque esta realidade se reveste de uma situação paradoxal que é potencialmente capaz de ressignificar o presente. O número cada vez maior do protesto moral dos indivíduos, isoladamente, ainda que pontual frente ao processo de degradação ambiental, se manifestarão através dos seus votos nas eleições que se aproximam.
Espero que tenhamos tempo em salvar nossos peixes e os pescadores profissionais, daqueles que deveriam defendê-los. Eis a nossa motivação.
Thomaz Lipparelli
Biólogo, Mestre e Doutor em Ciências Biológicas pela UNESP
Especialista em reprodução de peixes netropicais
Diretor Técnico do IPPN - Instituto Pantanal de Proteção à Natureza

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