A COBRANÇA DO USO DA ÁGUA NÃO TRARÁ MELHORIAS NA QUALIDADE AMBIENTAL EM MS

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A cobrança do uso da água poderá reduzir a competitividade de MS e não trará melhorias na qualidade ambiental

Por Thomaz Lipparelli (*)
http://www.ciems.org.br/noticia.php3?id=16264


Por maiores que sejam os esforços para planejar as políticas e escolher os melhores instrumentos de gestão, a regulamentação ambiental muitas vezes deixa de produzir melhorias efetivas na qualidade ambiental. A responsabilidade pode ser atribuída a problemas de implementação, entre eles a fraca capacidade institucional, a falta de recursos financeiros, e a insuficiência dos recursos humanos, que levam à falta de controle, fiscalização e obediência às leis.

A implantação do Plano Estadual de Recursos Hídricos em Mato Grosso do Sul mostra suas limitações e fragilidades. A falta de informação é uma delas. Este problema tende a ser geral, não somente na gestão dos recursos hídricos, como de forma mais abrangente na gestão ambiental. Há conhecimentos insuficientes sobre vários processos ecológicos, e também sobre a extensão dos problemas, dos benefícios sociais e econômicos efetivos trazidos pela melhoria da qualidade ambiental e pelo conhecimento de modos alternativos, de baixo custo e eficazes, de mitigar os problemas. Existem situações onde essas informações estão disponíveis, mas os gestores não têm acesso a ela.

A dificuldade causada pela falta de informação, no caso da outorga e cobrança pelo uso da água é agravada por duas variáveis. Primeiro, a teoria que justifica a utilização destes instrumentos de gestão das águas é complexa e, mesmo entre os técnicos mais experientes, causa muitas discussões amparadas pelas dúvidas e polêmicas que o tema desperta. Segundo, a população, de um modo geral, não tem a compreensão necessária deste tema, o que poderá tornar uma discussão superficial e inócua.

A falta de informação afeta todos os interessados nos problemas de gestão ambiental:

Os interesses locais, sobretudo as comunidades afetadas, as ONGs e outras organizações, poderiam exercer uma maior ou menor pressão junto aos agentes públicos, caso conhecessem mais precisamente os efeitos da poluição a que estão expostos, e principalmente se disporiam a participar da solução dos problemas se estivessem informados sobre as opções de controle ou maneiras de mitigar os impactos adversos da poluição.

Os poluidores, em muitos casos, estariam dispostos a modificar seu comportamento se conhecessem os benefícios e custos (particulares) de controle, inclusive as mudanças de processo e os possíveis aperfeiçoamentos tecnológicos, e às vezes até a legislação de controle ambiental aplicável ao seu caso.

As autoridades governamentais e os políticos, em especial, certamente dariam maior apoio a políticas favoráveis ao meio ambiente, caso conhecessem as relações existentes entre a qualidade ambiental e a saúde pública e, o fato que muitas soluções para os problemas ambientais não só não custam nada como ainda podem gerar trabalho e renda para as populações mais necessitadas.

Considerando a situação de nosso Estado, no que se refere às questões sociais e econômicas, como concentração de renda, desemprego, diferença no desenvolvimento das regiões e a histórica fragilidade institucional, pode-se antever uma série de dificuldades que não somente afetam a questão da gestão dos recursos hídricos como, de forma mais geral, a implantação das políticas ambientais.

Muitas vezes a definição de uma determinada política para um setor não é seguida do devido aporte de recursos e apoio político para sua efetiva implementação. Por isso temos em Mato Grosso do Sul um elenco de políticas e até mesmo de leis que, apesar de aprovadas, nunca chegaram a efetivamente serem implementadas.

Outra dificuldade, que não chega a ser novidade na implantação de políticas no Brasil, é a falta de compatibilidade entre os setores. Às vezes os Governos concedem fortes incentivos ao fomento de uma atividade econômica atrelada à geração de emprego, por exemplo, e muitas vezes esses incentivos conflitam com alguma regra ambiental existente.

No caso da gestão das águas, o risco é evidente, por exemplo, como conseqüência de uma disputa fiscal entre Estados, a utilização do instrumento cobrança pelo uso da água ser invalidado pela concessão de algum incentivo fiscal.

Também devem ser levadas em consideração as conexões entre a utilização da cobrança pelo uso da água e as políticas macroeconômicas. Na atualidade, em relação às políticas macroeconômicas, o mundo caminha em mão única, salvo exceções insignificantes do ponto de vista de geração de riquezas. O caminho que a maioria dos países está seguindo é o da abertura de suas economias, liberalização de seus mercados, criação de blocos, etc.

Nessa realidade, os produtores precisam ser competitivos não somente a nível local mas também global. Por esta razão muitos usuários poderão se opor à utilização do instrumento de cobrança pelo uso da água, alegando que este tipo de política poderá reduzir a competitividade no mercado internacional.

Não podemos desconsiderar, também, que muitas organizações internacionais têm grande interesse nesta discussão e fomentarão a criação de barreiras econômicas em decorrência das políticas ambientais que serão adotadas. Estas e outras questões causarão sérias dificuldades para a implementação do instrumento de cobrança pelo uso da água em nosso Estado.

A decisão pela adoção do instrumento de cobrança pelo uso da água passa por preocupações e avaliações econômicas, técnicas, científicas, sociais e políticas. Neste sentido, os potenciais impactos do uso deste instrumento, sobre determinadas classes de renda, ou setores de atividade, representam um aspecto de altíssima complexidade a ser considerado. Estas questões devem ser discutidas com toda a sociedade, antes da sua implementação.

Nossos governantes terão grande dificuldade de convencer as pessoas a pagarem por algo que antes usufruíam gratuitamente. Acredita-se que essas pessoas fariam oposição a este tipo de pagamento devido a suspeita de que teriam que simplesmente arcar com mais impostos sem se beneficiarem da redução de outros.

Finalmente, as dificuldades para a implementação da cobrança pelo uso da água são muitas e, a maioria delas, foge do escopo dos problemas dos recursos hídricos para a esfera do funcionamento do próprio Estado. Por outro lado, a necessidade de implantação de um modelo de gestão para os recursos hídricos é evidente e urgente. Um ponto positivo é que a sociedade civil começou a se organizar e participar mais ativamente da busca de soluções para seus grande problemas. Infelizmente, dentro deste cenário, construir um Plano Estadual de Recursos Hídricos para unicamente viabilizar a outorga e cobrança do uso da água, não trará nenhum resultado efetivo na qualidade ambiental de nosso Estado.

(*) Thomaz Lipparelli é Diretor-Técnico do Instituto Pantanal de Proteção à Natureza

OUTORGA EM MATO GROSSO DO SUL, QUALIDADE DA ÁGUA EM MATO GROSSO DO SUL

sexta 19 junho 2009 05:06



1 comentário(s)

  • pantanal Dom 27 Jun 2010 13:07
    Obrigado Erom, estamos na luta por um país sem mentiras.


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