Uma
recente matéria vinculada na Imprensa (artigo em anexo),
onde se discute
a possibilidade de implementar um acordo de pesca (profissional) no
Pantanal, aos moldes do modelo da Reserva Amanã (AM), nos remete à
reflexão quanto à pesca, como atividade extrativista, e seus
impactos sociais, econômicos e principalmente ambientais. Para
entendermos o que vem a ser um “acordo de pesca”, temos
que entender a crise que o extrativismo vem apresentando e a
dimensão da pesca extrativista no
Pantanal.
O extrativismo pode ser definido como um modo
de obter alimentos e matéria prima, por meio ou sob circunstâncias
tais que dispensam as atividades e os custos do cultivo prévio.
Nesse sentido a pesca, como atividade extrativista, poderia ter
como lema “pesca-se sem produzir”, em contraste à
agricultura “colhe-se o que se
planta”.
No Brasil, o extrativismo foi
institucionalizado como instrumento de política ambiental em 1989
e, desde então, as chamadas Reservas Extrativistas (RESEX) –
ícones deste modelo, passaram a serem tuteladas como unidades de
conservação (UC), descritas como unidades de uso direto, nas quais
populações humanas ditas tradicionais (previamente estabelecidas na
área) ou “neotradicionais” (vivem dentro de seus
limites) exploram ou mesmo cultivam os recursos locais, tais como
madeiras, frutos, sementes, pesca, etc.
As primeiras reservas extrativistas surgiram
no Acre em 1990, envolvendo grupos de seringueiros e castanheiros,
com o objetivo declarado de conciliar o desenvolvimento econômico
com a conservação biológica. Desde então, várias outras Reservas
Extrativistas foram criadas. Entretanto, o Acre, que até pouco
tempo atrás, era considerado o maior produtor brasileiro de
borracha, perdeu essa posição para o Estado de São Paulo, onde a
espécie está sendo cultivada de forma extensiva. O extrativismo da borracha gerou
riqueza porque não havia concorrência e os seringueiros trabalhavam
em semi-escravidão. Quando surgiram plantações comerciais, o
sistema colapsou. Como aconteceu com a borracha, o extrativismo
nunca poderá competir com sistemas intensivos de produção, sendo
viável, e de forma temporária, apenas nos poucos casos em que
ninguém estabeleceu plantios ou criações
intensivas.
Na pesca, o manejo de pirarucu em algumas
reservas do Amazonas, hoje gera boa renda. Mas o que acontecerá
quando surgirem criadouros que produzam o bicho como se fosse
frango de granja, como já se tenta em São Paulo? Seringueiros estão
virando madeireiros e pecuaristas – imagino o que Chico
Mendes diria disso (OLMOS, 2006).
As Reservas Extrativistas do Acre são
hotspots para
incêndios devastadores de origem humana ou que a icônica Reserva
Extrativista Chico Mendes já tem quase 30 mil hectares (quase um
Parque Nacional do Itatiaia, em tamanho) de pastos porque os
seringueiros passaram a ser fazendeiros quando diminuiu o subsídio
que os sustentava, e eles tiveram que optar por algo que desse
dinheiro (OLMOS, 2006).
Em tempos de biodiesel, incentivar a migração
de populações tradicionais (incluindo extrativistas) para regiões
já desmatadas onde possam se tornar produtores e empresários da
produção de dendê poderia ser uma opção econômica muito mais
interessante do que eu manter essas pessoas detonando aos poucos
áreas ecologicamente importantes para sustentar um padrão de vida
abaixo da linha de pobreza. É sempre bom lembrar que a vasta
maioria dos atuais extrativistas são descendentes de imigrantes
que, três ou quatro gerações atrás, foram incentivados a buscar sua
ascensão social em um novo modo de vida em uma nova região, em
alguns casos se mesclando, mas em geral eliminando os povos
indígenas que ali viviam (OLMOS, 2006).
Não é surpresa que as RESEX convivem com a
evasão crônica de seus moradores, que acabam migrando para as
cidades da região e inflando as periferias, coisa que era regra em
Rondônia. Para mim, muito do esforço em prol das RESEX visa antes
evitar esses êxodos rurais, livrando os gestores urbanos dos
problemas advindos de populações carentes crescentes em cidades
onde a infra-estrutura e o emprego é escasso, transferindo para a
natureza a carga de sua subsistência.
Duas questões podem ser levantadas quando
falamos que o extrativismo desempenha ou que poderia vir a
desempenhar em uma equação comumente rotulada de
“desenvolvimento sustentável”: a econômica e a
ecológica. Embora alguns autores ressaltem a possibilidade ou até
mesmo a importância do extrativismo para conciliar o
desenvolvimento econômico com a conservação da natureza, a adoção
de reservas
extrativistas - símbolo máximo deste modelo, tem sido
seriamente criticada, tanto do ponto de vista econômico como ecológico.
Há uma série de registros históricos,
antropológicos e econômicos, alertando contra a noção –
ingênua ou, às vezes, francamente demagógica – de que
populações tradicionais ou neotradicionais vivem em harmonia ou
exploram os recursos de modo ecologicamente correto. Ao contrário,
sempre que podem, populações humanas tendem a explorar os recursos
naturais disponíveis até a exaustão, principalmente quando se trata
do uso de bens públicos.
A inviabilidade intrínseca do extrativismo é
a má notícia que ninguém quer ouvir, pois setores do governo
fizeram suas carreiras apregoando uma doutrina que está mais para
messianismos utópico do que para política sólida (OLMOS,
2006). Certos autores
– sobretudo das ciências humanas, que discutem a pesca
extrativista no Pantanal – insistem em defender a visão de
que os pescadores profissionais, como populações tradicionais,
vivem ou podem viver em equilíbrio duradouro com a natureza,
caracterizando-os em bons selvagens.
O maior problema é que essas opiniões não
costumam vir acompanhada por evidências que as sustentem, deixando
transparecer uma defesa cega que se faz de uma posição ideológica.
Além disso, insistem em “rotular” pescadores
profissionais em populações tradicionais, como se isso pudesse
resguardá-los das leis de mercado, que na verdade os impedem de
terem acesso aos bens e serviços que a sociedade moderna
disponibiliza a todo cidadão. No entanto, tais opiniões se
constituem em preconceitos e não uma conclusão a que se chega após
exaustivo e consistente estudo, oriundo de um leque amplo e variado
de pesquisas independentes, de qualidade, no mínimo,
duvidosa.
Com o discurso vazio de estar protegendo
populações tradicionais e uma atividade extrativista
“secular” está presenciando na pesca extrativista no
Pantanal uma desastrosa espiral de
perdas econômicas, ambientais e, sobretudo sociais, sobretudo da
dignidade humana daqueles que vivem às margens dos rios e destes
retiram o seu sustento. São os efeitos da sobrepesca, que alguns
tentam mascarar, não só os números, mas a própria incompetência em
lidar com a realidade e propor soluções. Precisamos ter coragem de mudar
esta realidade, ou serem eternamente manipulados por aqueles que
externalizam seus discursos por interesses pessoais, sobretudo
políticos.
É ampla a literatura sobre o uso
insustentável de recursos naturais como a castanha do Brasil e a
fauna, o que resulta em extinções locais, florestas vazias e
alterações em processos ecológicos. Raras são os exemplos em que
comunidades extrativistas não estão detonando as populações de uma
das espécies exploradas (OLMOS, 2006).
Um exemplo imaginário talvez ajude o leitor
em entender melhor o tipo de conflito com o qual estamos lidando
quando falamos em pesca como atividade extrativista e sustentável
para o Pantanal. Suponhamos que seu Pedro seja casado
e, como pescador profissional, sustenta três filhos menores,
vendendo 100 Kg de peixe por semana. Vive em uma casinha de sapé de
dois cômodos às margens do rio, cercado por grandes propriedades
rurais. Com base apenas nas atividades do seu Pedro, e admitindo
que o preço do quilo do peixe permaneça constante ao longo do
tempo, três cenários futuros poderiam ser
vislumbrados:
Cenário 1. O mercado de peixe permanece
inalterado.
O seu Pedro passa a vida toda (até se
aposentar) pescando para sustentar a família com os mesmos 100 Kg
de peixe por semana. Com o tempo, a família talvez sofra um certo
empobrecimento, principalmente por causa do aumento na demanda de
bens que acompanha o crescimento dos três filhos. Um jeito de
compensar esse aumento na demanda por bens e, assim, driblar o
empobrecimento, seria forçar a entrada prematura dos filhos menores
no mercado de trabalho, inclusive como pescadores profissionais. A
médio e longo prazo, no entanto, isso parece ser apenas um atalho
(vergonhoso) que leva ao fracasso, até porque o trabalho infantil
degrada a vida presente e compromete a vida futura dos seus filhos.
A bolsa-escola bem poderia ser um contrapeso direto, simples e
eficiente a esta situação vergonhosa. Em todo caso, com ou sem
bolsa-escola, seu Pedro prefere enviar os filhos para a escola,
acreditando que dias melhores virão.
Cenário 2. O mercado de peixe
expande.
O seu Pedro acredita ser a grande
oportunidade de mudar a sua vida. Capturar mais em menor tempo
passa a ser seu objetivo de vida, pois o mercado compra tudo o que
se consegue capturar. Entretanto, a situação atraiu novos
pescadores na região do seu Pedro, aumentando também a oferta. Para
aumentar a “competitividade”, seu Pedro força a entrada
prematura dos filhos menores na atividade. Mandar as crianças para
a escola deixa de ser prioridade. Pescar da forma tradicional
também não compensa e, seu Pedro não tem alternativa: passa a
utilizar os petrechos proibidos, para tirar proveito do mercado
aquecido. Ele esta convencido que deverá comprar uma embarcação
motorizada para enfrentar a concorrência, assim ele poderia
“correr atrás dos cardumes” e ganharia mais
dinheiro.
Cenário 3. O mercado de peixe
encolhe.
Ao invés dos 100 Kg/semana, seu Pedro agora
só consegue vender 50Kg/semana. O rio tem muito pescador e pouco
peixe. As pessoas na cidade estão consumindo o peixe oriundo da
produção (pisciculturas), por ser mais barato. Seu Pedro tende a
empobrecer (com ou sem filhos pequenos para criar); muitos, como o
seu Pedro, abandonarão a pesca extrativista, migrando para outras
localidades. Outros, por uma série de fatores, permanecerão às
margens dos rios e logo passam a perceber que há mercado para
outras riquezas encontradas em abundância dentro dos domínios onde
moram. Quer dizer, pescadores podem facilmente se transformar em
lenhadores, carvoeiros, caçadores, etc.
O primeiro cenário descrito talvez seja o
mais raro de ocorrer. Na maioria das vezes estamos lidando com
situações parecidas ao cenário 2 e 3. No cenário 2 os peixes serão
capturados até a sua exaustão, beneficiando os intermediários
chamados regionalmente de “gatos”. No cenário 3 a falta
de peixes compromete a sobrevivência deste pescador, restando a
destruição ao seu redor. Neste ponto a pesca mostra o quanto é
insustentável e dependente do mercado. O lado econômico da equação
“desenvolvimento sustentável” exigiria, portanto,
outras variáveis ou componentes adicionais para se manter
equilibrado (i.e. alternativas de trabalho e
renda).
Além da questão econômica a pesca
extrativista também causa problemas ambientais. O lado mais visível dos impactos
da pesca extrativista sob o meio ambiente, esta no aumento do
número de pescadores, que resulta no incremento do esforço de
captura. Mais equipamentos e petrechos de pesca em cima de cardumes
vulneráveis podem representar um grande risco ao meio ambiente e
conseqüentemente a sustentabilidade da atividade. Por outro lado, a
idéia da baixa densidade de pescadores, vivendo apenas da captura
daquilo que a natureza oferece, que a princípio parece ser pouco
impactante, esta seriamente ameaçada.
Não existe, certamente, um amanhã com este
modelo de pesca extrativista, tanto pela forma com que os usuários
tratam os rios do Pantanal, e tudo o que nele vive, como pela
ganância de retirar o quanto for possível em menor espaço de tempo.
Para os pescadores amadores, as medidas de restrições impostas pelo
ordenamento pesqueiro, estão sendo assimiladas gradativamente,
diminuindo com isso a pressão sob as principais espécies
esportivas. Para os pescadores profissionais, as magras capturas de
hoje prenunciam o seu amanhã, um reflexo das práticas abusivas no
passado e do equivoco em tratar pescadores profissionais como
populações tradicionais.
O turismo de pesca esta dando sinais de
recuperação, graças às novas medidas de ordenamento dos últimos
oito anos e a conscientização dos empresários do turismo de pesca.
Apesar da redução dos estoques pesqueira, causada, sobretudo, pelos
excessos do passado, empresários do turismo de pesca nos dois
estados (MS e MT) estão retornando seus investimentos, se
enquadrando às novas medidas de ordenamento pesqueiro (ex. pesca e
solte) e, sobretudo, buscando alternativas para compensarem as
perdas econômicas nos últimos anos.
Na pesca profissional extrativista a
realidade é bem diferente e extremamente preocupante. Apesar dos
sérios problemas de sobrepesca, sobretudo no declínio da captura
por unidade de esforço e da queda de rendimento na captura em
algumas espécies, a atividade continua dando sinais de alta
rentabilidade, contrapondo a qualidade de vida destes pescadores,
que declina acentuadamente a cada ano.
Qualquer comerciante de peixe local confirma
a existência de um grande mercado a ser abastecido, de escoamento
fácil e rápido, assim como as tarrafas e redes são lançadas e
retiradas de nossos rios. Entretanto, como explicar o atual
incremento no esforço de captura, apesar da queda dos preços pagos
aos pescadores, a ausência de subsídios oficiais no custeio desta
atividade e a falta de peixe nas principais cidades onde há pesca
profissional?
A princípio, sabemos que as leis de mercado
regulam os preços, que por sua vez, não pode excluir os custos
desta exploração.
Além disso, o desenvolvimento dos preços está sujeito à lei da
oferta e da procura, ou seja; na lógica do mercado, quanto maior a
oferta menor será o preço a ser pago pelo consumidor
final. Mas esta
lógica não se aplica no mercado de peixe local. O pescador profissional -
artesanal, na região de Miranda - MS, por exemplo, comercializa o
seu peixe pelo irrisório valor de U$ 0.80 / Kg do pintado
(Pseudoplatystoma
coruscans) na estação seca (maior oferta) e a U$ 2,00/ Kg na
estação cheia (menor oferta). Entretanto, o preço final ao
consumidor local é proibitivo ao consumo nesta escala, o que nos
leva a acreditar na hipótese de que a produção proveniente da pesca
profissional esteja abastecendo um mercado externo voraz. O
consumidor final, por exemplo, no mercado de Campo Grande –
MS, paga pelo mesmo peixe o valor de U$ 6,00 a U$ 8,00 / Kg, com
uma alíquota do ICMS de 15% em MS.
O que sustenta esta hipótese, também, é o
fato que os peixes da produção, principalmente em Mato Grosso do
Sul, vem abastecendo cidades tradicionais da pesca profissional,
tais como Corumbá, Porto Murtinho, Miranda e
Coxim.
Assim, cria-se a hipótese que os peixes
oriundos da pesca extrativista estejam abastecendo o mercado
externo (outros estados, Paraguai e Bolívia), e nesta escala,
provavelmente, grande número de pescadores profissionais, esteja
utilizando-se de métodos ilícitos (predatórios) com a ilusão de que
poderiam alcançar maior rentabilidade e com isso recompor as
supostas “perdas” econômicas.
A falta de estatísticas de pesca confiáveis
sobre estas e outras questões, atrasa ainda mais a adoção de
medidas saneadoras. Veja por exemplo, o famigerado Sistema de
Controle de Pesca (SCPESCA) de Mato Grosso do Sul, apontam em seus
boletins, uma produção pesqueira média de 300 tonelada para a pesca
profissional em todo o Pantanal sul-mato-grossense e quando
analisamos as Estatísticas de Pesca Nacional (MMA/IBAMA) e
observamos que a produção média de pescado do Lago Paranoá
(Brasília) também é de 300 toneladas/ano. Estas informações nos
mostram o quanto à política de pesca deste estado, esteve
sustentada, a mais de vinte anos, por
inverdades.
Corroborando com este atraso, temos aqueles
que defendem a manutenção da pesca profissional na mesma escala das
décadas de 80 e 90, que com o tão combalido discurso de
“defensores do
conhecimento tradicional”, acabam reforçando junto aos
pescadores os equívocos de um modelo defasado. Sugerimos a estes
“defensores” uma leitura criteriosa da Constituição
Federal, podendo começar pelo Artigo 225.
Entretanto, técnicos e gestores terão a
difícil missão: como propor uma reorientação do ordenamento
pesqueiro face à intolerância dos usuários em não reconhecer que
fazem parte do problema e também da solução? Enquanto os pescadores
profissionais e pesquisadores oportunistas manterem o modelo mental
de que o governo não pode criar restrições a esta atividade, não
haverá solução ao problema. O modelo mental que me refiro esta
internalizado em nossa memória na fala de um dos dirigentes dos
pescadores profissionais em uma reunião em abril de 2005:
“Deus nos deu o
direito de pesca (sic) e vamos pesca até o último peixe, e não será
o homem que irá tirar este meu direito”. Dentro deste cenário constatamos
que a questão é, sobretudo, cultural e neste campo, a solução passa
por um amplo processo de educação ambiental e reforma
íntima.
Neste cenário desolador, com técnicos
inflamados na fogueira da vaidade e pescadores descomprometidos com
o futuro, temos ainda o pescador ribeirinho artesanal - o usuário
mais frágil do sistema - refém deste modelo pesqueiro perverso que
acentua as desigualdades sociais por todo o Pantanal.
O que sobressai desta névoa de desconfiança,
é que “alguém” esteja ganhando com este modelo, que sem
dúvida alguma não é o pescador ribeirinho.
Há a cruel realidade de que o extrativismo só
é viável se os que o exercerem fizerem uma opção pela pobreza
franciscana, ou forem pesadamente subsidiados pelo contribuinte ou
pela filantropia. No país da Lei de
Gerson, populações “tradicionais” estão atreladas a
ONGs empenhadas na expansão agressiva de seu mercado de trabalho.
Com o governo tomado por seus representantes e repassando recursos
aos amigos, quanto mais moda inventarem, mais espaços
terão. Por trás do
discurso da inclusão social está à busca de direitos exclusivos ou
de uma boquinha, o que alimenta a corrupção e formação de feudos
particulares em entidades e órgãos que deveriam ser públicos
(OLMOS, 2006).
Estamos de frente com o grande desafio. Ou
construímos uma nova atividade pesqueira, justa e responsável, ou
assumimos e reconhecemos, definitivamente, que a pesca extrativista
no Pantanal, como se apresenta, não tem futuro. Restam-nos os seguintes
questionamentos: Estaríamos forçando os recursos pesqueiros do
Pantanal ao limite? Quem esta lucrando com a redução dos nossos
estoques pesqueiros e a miserabilidade dos
ribeirinhos?
A tarefa de aplicar os instrumentos
necessários ao ordenamento da pesca é competência do Estado, mas um
novo modelo de ordenamento pesqueiro vem sendo discutido em Mato
Grosso do Sul (ver matéria abaixo), fundamentado na gestão participativa, com
pressupostos sociais, econômicos e, sobretudo, ambientais muito bem
definidos.
Os fóruns de pesca regionais
podem ser
importantes instrumentos de uma gestão participativa. Santos et al. (2001) considera que
estes fóruns devem se constituir verdadeiros espaços de negociação
política e dos interesses dos diversos segmentos organizados,
envolvidos com a atividade pesqueira, tendo como finalidade
primordial o aperfeiçoamento das políticas do setor.
Ruffino (2004), técnico do
IBAMA/MMA, considera
que as experiências do IBAMA relacionadas à gestão participativa revelam
uma série de dificuldades no exercício democrático de formação e
funcionamento dos fóruns de gestão. Nos acordos já estabelecidos,
alguns pescadores têm transgredido os acordos firmados, o que
constitui um dos principais entraves para que o atual ordenamento
pesqueiro se torne um instrumento eficaz. Entretanto, a
participação da comunidade pesqueira na fiscalização visa
principalmente mudar o papel do usuário. De objetos, tornando-se
atores na tarefa-chave de fiscalização. A fiscalização
participativa também objetiva o aumento do grau de eficiência na
fiscalização dos órgãos competentes (RUFFINO,
2005).
Entendemos que tal convívio só será possível
quando mecanismos de participação efetiva de todos os segmentos
beneficiados pela exploração dos recursos pesqueiros de uma região
forem implementados, com regras claras e negociadas e, sobretudo,
acatadas por todos.
Não podemos falar na criação de um modelo de
gestão participativa, se as regras jurídicas, ou normas sociais
forem descumpridas, se os discursos apontarem unicamente para um
incremento do esforço de captura, sem estudos técnicos e
científicos criteriosos. Não podemos falar em gestão participativa
se os usuários do sistema manterem-se “reinvidicativos”
e não adotarem comportamentos “propositivos” e se
certos cientistas, tradicionalmente “supositivos”, não
adotarem o comportamento de facilitadores do processo e terem
coragem de ir ao debate despidos do manto da
soberba.
A problemática da pesca no Pantanal é
bastante similar à questão do assessoramento do rio Taquari. Muito
discurso e pouca ação, muitos projetos, mas nenhum planejamento.
Como disse uma vez um pecuarista do Pantanal Sr. Manoel Martins de
Almeida durante o 1º. Congresso Internacional sobre Conservação do
Pantanal em 1989: “tudo aqui, requer estudos
minuciosos e planejamentos profundos (...) só que de estudos e
planejamentos já entupiram o Taquari, atrasaram a pecuária,
minguaram os estoques pesqueiros, assistiram ao contrabando de
peles e de araras, viram crescer a criminalidade (...),
acompanharam estatisticamente, o êxodo rural, e nada foi
feito”. Chegou a hora de fazermos
mudanças profundas no ordenamento pesqueiro para o Pantanal, antes
que seja tarde demais.
Ao nosso ver, o ordenamento pesqueiro no
Pantanal somente será viável se houver: (1) a readequação da
regulamentação existente às peculiaridades regionais; (2)
estatísticas confiáveis baseadas no desembarque pesqueiro em
entrepostos; (3) estudos que apontem as taxas de natalidade e
mortalidade das populações de peixes; (4) estudos da capacidade de
suporte dos nossos rios; (5) instrumentos confiáveis que possam
estabelecer o zoneamento da atividade pesqueira; (5) um amplo
trabalho de educação ambiental a todos os usuários do sistema
(pescadores amadores e profissionais) para que possam exercer em
sua plenitude o papel de defensores da natureza e, (6) se houver um
modelo de ordenamento ecossistêmico.
Assim, caro leitor, até que me provem o
contrário, vincular a possibilidade de criação de um acordo de
pesca no Pantanal como solução à crise no setor, é uma estratégia
oportunista e inconseqüente, para não dizer irresponsável, dentro
de um cenário de colapso. Ficamos com as seguintes dúvidas: a quem
interessa um acordo de pesca no Pantanal? A manutenção da pesca
extrativista no Pantanal seria o resultado da infeliz confusão
entre o que seja militância social e conservação de serviços
ambientais e biodiversidade?
Com a palavra a
sociedade.
Thomaz
Lipparelli, Biólogo, MsC e Dr. em Zoologia pela UNESP, especialista
em Conservação da Natureza.
MATÉRIA
Embrapa conhece experiência de
manejo e conservação ambiental
comunitária
13/11/2008 16:51:19
(fonte:
www.corumbaonline.com.br, acessado em
24/11/2009)
Ana Maio
Pesquisas aplicadas feitas pelo
Instituto Mamirauá, no Amazonas, foram apresentadas a três
pesquisadores da Embrapa Pantanal que visitaram a maior reserva
extrativista do país na primeira semana de novembro. A
sustentabilidade do local chamou a atenção dos cientistas do Mato
Grosso do Sul, que pretendem aproveitar modelos de manejo, de
organização social e de acordos de pesca para o
Pantanal.
A visita à reserva foi sugerida pela
diretora executiva da Embrapa Tatiana Deane de Abreu Sá durante a
reunião do CAE (Comitê Assessor Externo) da Embrapa Pantanal em
2007.
O chefe de Pesquisa e Desenvolvimento,
Thierry Ribeiro Tomich, os pesquisadores Agostinho Catella e
Cristhiane Amâncio, e o jornalista Jean Fernandes, da ONG Ecoa,
ficaram impressionados com o manejo sustentável da região. O grupo
visitou a reserva Amanã, anexa à Mamirauá. A cidade mais próxima é
Tefé (AM), onde fica a sede do instituto.
Mamirauá nasceu como uma ONG no início
dos anos 1990, por iniciativa do professor Márcio Ayres, da
Universidade Federal do Pará. Ele morreu em 2003. O governo federal
se interessou pelo projeto, criou o instituto e formalizou um
convênio com as duas reservas, que são estaduais. Este convênio foi
firmado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia.
Thierry Tomich disse que a reserva
amazônica é bastante distinta do Pantanal, o público é diferente,
“mas existem muitos pontos de aderência”. “Eles
têm uma história de atuação bem-sucedida, envolvendo acordos de
pesca, aumento de renda para a comunidade e uso sustentável dos
recursos naturais”, disse o chefe de pesquisa da Embrapa
Pantanal (Corumbá-MS), Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária - Embrapa, vinculada ao Ministério da Agricultura,
Pecuária e Abastecimento.
Uma das diferenças mais marcantes entre
as duas regiões está relacionada ao uso da terra. De acordo com
Thierry, na reserva a terra é de uso da comunidade, não tem um
dono. “No Pantanal, 96% da área são propriedades
particulares.” Apesar disso, ações desenvolvidas em Mamirauá
podem nortear atividades no Pantanal.
PESCA
É o caso, por exemplo, dos acordos de
pesca, como conta o pesquisador Agostinho Catella. As decisões são
co-participativas e os próprios pescadores atuam como vigilantes
dos lagos e avaliam os estoques pesqueiros disponíveis, como no
caso do gigante pirarucu, que é uma das espécies mais visadas e
chega a alcançar mais de dois metros de comprimento.
“A população local e os
pesquisadores do Instituto perceberam que alguns estoques estavam
diminuindo. Para estabelecer o manejo participativo do pirarucu na
reserva, os pescadores foram recrutados. No início dos anos 90 foi
reunido um grupo de aproximadamente 40 pessoas”, disse
Agostinho.
Junto com pesquisadores, eles se
reuniram e determinaram as regras para a pesca, os períodos de
defeso para algumas espécies e as cotas de captura. “Em
função do sucesso do trabalho, a população de pirarucu aumentou e
hoje mais de 600 pescadores da região participam do programa de
manejo dessa espécie”, completa o pesquisador.
Para ter direito à pesca do pirarucu, o
indivíduo precisa participar anualmente da vigilância dos lagos e
da contagem do número de peixes adultos, o que é feito quando o
pirarucu “bóia”, isto é, vem à superfície para
respirar. O número de peixes que poderão ser capturados corresponde
a uma porcentagem dos peixes adultos que foram contados no ano
anterior. Os pesquisadores da Embrapa Pantanal tiveram a
oportunidade de acompanhar uma pescaria de pirarucu.
Agostinho disse ainda que o desembarque
de peixes é diário em Tefé e que o controle estatístico é feito de
segunda a sábado pelo Instituto. “A forma coletiva como foi
construído o acordo de pesca pode ser aplicada no
Pantanal”.
ORGANIZAÇÃO
SOCIAL
A pesquisadora Cristhiane Amâncio
afirmou que existem cerca de 14 mil pessoas vivendo dentro da
reserva, mas o uso é feito por aproximadamente 20 mil moradores
– no entorno vivem quase 6 mil pessoas.
O grupo do Pantanal se reuniu com
mulheres que fazem artesanato a partir da fibra extraída do caule
do cauaçu, uma planta que cresce na várzea do rio Solimões. No
início, elas enfrentaram resistência dentro das próprias famílias,
mas hoje a atividade está entre as principais fontes de renda para
essas mulheres.
“Elas reorganizaram a estrutura
social das famílias e valorizaram o papel da mulher na economia
local” disse Cristhiane. Com o tempo e muita organização,
recuperaram técnicas para a confecção de cestos, esteiras e outros
objetos e se aperfeiçoaram participando de feiras nacionais e
internacionais. “É impressionante a auto-estima dessas
mulheres”, disse Agostinho.
Cristhiane falou ainda que Mamirauá é
uma referência histórica, não apenas para a pesquisa. “Eles
sempre trabalharam com a visão do uso sustentável em função das
pressões que sofriam ali. A conservação dos recursos naturais no
Pantanal está muito distante da realidade das comunidades visitadas
na Amazônia”, afirmou.
Segundo a pesquisadora, existe no
Pantanal uma visão equivocada de que a propriedade privada é que
vai propiciar a conservação. “Mas o conhecimento tradicional
e o uso do ambiente por quem sempre ocupou aquele espaço deveriam
ser respeitados”, disse Cristhiane.
A inclusão do homem no manejo
sustentável é condição para a conservação ambiental, já que a
fiscalização é insuficiente. “Se o Estado brasileiro
considera a cultura pantaneira importante, ele precisa intervir,
porque o conhecimento tradicional está se perdendo. O Estado
precisa se posicionar”, afirmou a pesquisadora.
Ela contou ainda que quando a reserva
de Mamirauá foi criada, um estudo mostrou que as 295 comunidades
que vivem na região eram contrárias. Imaginavam que precisariam
deixar de explorar o ambiente, o que não aconteceu. “Hoje há
um consenso que os moradores não vivem mais sem a
reserva.”
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