O ministro Roberto Mangabeira Unger é um dos raros homens públicos brasileiros preocupados com os interesses estratégicos do Estado (Ag Brasil)
MINISTRO MANGABEIRA: UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL
Thomaz Lipparelli, Biólogo, Mestre e Doutor pela Unesp.
Tive a felicidade de conhecer o Excelentíssimo Ministro Extraordinário de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, durante sua rápida exposição (12/01/2009) no auditório da Governadoria em Campo Grande (MS). Estive, frente a frente, com um dos mais respeitáveis estrategistas brasileiros da atualidade que propõe soluções simples para o desenvolvimento: uma política pró-ativa em defesa da economia física e da soberania de nosso país. Ao ouvimos dele que “a base do desenvolvimento econômico e social do Brasil deve ser assentada na agricultura (e pecuária), indústria e educação”, nos faz acreditar que uma “revolução moral e intelectual” esta se iniciando neste país.
Não se aprofundando nas questões ambientais, o Ministro Unger foi enfático em afirmar que a solução para os problemas ambientais de Mato Grosso do Sul passa por investimentos na recuperação de áreas degradadas e de proteção. Para os que não entenderam a mensagem, ela foi explícita: vontade política e mudanças de atitude.
Infelizmente, mediante a lista de “reinvidicações” apresentadas ao Ministro durante a reunião, chego à conclusão que até os setores mais lúcidos da sociedade sul-mato-grossense não entenderem a que veio o Ministro Unger ao Mato Grosso do Sul.
Desta reunião (pelo menos até onde sabemos) não resultou em qualquer ação concreta de cooperação, apesar do Ministro se prontificar em receber em Brasília os setores produtivos, governo e organizações não governamentais para discutir os problemas e soluções para o desenvolvimento de nosso Estado.
Após, exatos, dois meses se passaram e nenhuma resposta foi dada à sociedade pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente, da Cidade, do Planejamento da Ciência e Tecnologia. Já deveríamos estar discutindo novos projetos que pudessem injetar crédito financeiro diretamente pelas instituições públicas, como a Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em nosso Estado. Deveríamos estar discutindo um fundo estratégico de investimentos em projetos de infra-estrutura, em especial, transportes, energia e pesquisas científico-tecnológicas, a integração das cadeias produtivas e, certa ajuda (não-permanente) aos setores produtivos regionais contra os efeitos diretos da crise econômica global.
Para os que participaram da reunião a fim de cooperar, sem quaisquer ilusões ideológicas, restou à frustração. O Ministro Unger deu o seu recado, mas poucos entenderam a sua mensagem. Infelizmente, Mato Grosso do Sul esta muito distante de um Plano Estratégico de Desenvolvimento. Continuaremos a ser um palco de uma luta permanente pelo posto mais alto da hierarquia de poder local.
A seguir, uma entrevista do Ministro de Assuntos Estratégicos Roberto Mangabeira Unger, publicada na edição eletrônica de 9 de fevereiro do Jornal espanhol El País.
Mangabeira avalia crise global e papel do Brasil
Um dos mais polêmicos homens públicos brasileiros da atualidade, o ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos Roberto Mangabeira Unger é também um dos raros que têm demonstrado um entendimento mais profundo da crise sistêmica global e da maneira como o Brasil deveria se posicionar frente a ela. Uma amostra significativa do seu pensamento a respeito pode ser conferida na entrevista concedida por ele ao jornal espanhol El País, publicada na edição eletrônica de 9 de fevereiro, da qual destacamos os seguintes trechos:
Sobre a crise global:
"Eu diria que desde há muito tempo o mundo está submetido ao jugo de uma ditadura de falta de alternativas e que, em geral, na história moderna, ao contrário do que pensaram muitos dos grandes teóricos sociais, as mudanças foram forçadas pelas guerras e os colapsos econômicos. O trauma foi o requisito da transformação. Hoje há uma grande pobreza de idéias sobre as alternativas no mundo. As idéias que orientaram a esquerda historicamente, como o marxismo, estão falidas, e a resposta à crise financeira internacional revela de uma forma muito dramática as conseqüências dessa pobreza de idéias. Não há nada que não seja uma versão mumificada do keynesianismo vulgar, é a única luz nessa escuridão. Até agora, o debate tem sido quase inteiramente dominado por dois temas superficiais: o imperativo de regular os mercados financeiros e a necessidade de adotar políticas fiscais e monetárias expansionistas. São idéias muito por baixo do nível e da dimensão do problema. Os líderes das 20 economias mais importantes do mundo se reúnem em Washington e não têm nada a dizer. A verdade é que os poderosos aborrecem as idéias; quando eles chegam, elas se vão.
“Há três temas suprimidos no debate, muito mais importantes do que esses dois temas superficiais”... Primeiro, a necessidade de superar os desequilíbrios estruturais na economia mundial, entre os países com superávit em comércio e poupança, começando pela China, e os países deficitários em comércio e poupança, começando pelos EUA. O motor do crescimento mundial, nos últimos anos, foi o acordo implícito desses dois elementos. Este motor quebrou e vamos ter que conseguir. Isto exigirá grandes mudanças nos EUA, na China e na organização da economia mundial.
"(...) Vamos ao segundo ponto: a necessidade de que a regulamentação dos mercados financeiros seja parte de uma tarefa maior, que é reorganizar a relação entre o sistema financeiro e a produção. Reorganizar especificamente o vínculo entre finanças e produção. Da maneira em que se organizam hoje as economias de mercado, o sistema produtivo está basicamente autofinanciado. Qual é então o propósito de todo o dinheiro que está nos bancos e nas bolsas de valores? Teoricamente, serve para financiar a produção, mas a realidade é que ele só vai obliquamente a este propósito. Isso não tem que ser assim e esse é o resultado das instituições existentes. Nesse sistema, as finanças são relativamente indiferentes à produção em tempos de bonança e são uma ameaça destrutiva quando surge uma crise como essa. Quer dizer, são indiferentes para o bem e eficazes para o mal.
"[O terceiro ponto é] o vínculo entre recuperação e redistribuição. Todos admiramos a construção, na segunda metade do século XX nos EUA, de um mercado de consumo em massa. Em princípio, a construção deste tipo de mercado exige a democratização do poder aquisitivo e, portanto, redistribuição da renda e da riqueza, mas isso não ocorreu nos EUA. Ocorreu o contrário, houve uma violenta concentração de renda e de riqueza. Como, então, conseguiram os norte-americanos construir um mercado de consumo em massa? Parte da resposta está no que ocorreu com a supervalorização imobiliária fictícia. Tem havido uma falsa democratização do crédito... que fez as vezes da democratização de redistribuição da renda e da riqueza, que não houve. E agora esse sistema está destruído, é necessário criar uma nova base para o mercado. É necessário insistir em mudanças mais profundas. O que eu digo aos meus concidadãos é que eu quero uma dinâmica de rebeldia; mas a rebeldia é uma condição necessária, mas não suficiente. Necessita uma aliada que é a imaginação, a imaginação institucional.
Sobre o papel do Brasil:
"Vou dizer imediatamente o que me parece mais importante sobre o Brasil. O seu atributo que mais se pode destacar é a sua vitalidade. O Brasil é, sobretudo, vida. Ferve de vida que vem de baixo e essa vitalidade tem uma expressão social muito importante. A classe média tradicional há muito tempo está debilitada, econômica e espiritualmente. Eu digo espiritualmente porque essa classe média tradicional ameaça, assim como nos países ricos do Atlântico Norte, com uma cultura de desencanto com a política. Mas o Brasil não é a Dinamarca, em nosso país tudo continua dependendo de soluções coletivas para problemas coletivos. Nós necessitamos desesperadamente da política.
"Surge, ao lado dessa classe média tradicional, uma segunda classe média que vem de baixo. Não é uma classe média europeizada, sofisticada; é rude, morena, mestiça, de milhões de pessoas que trabalham, lutam para abrir pequenas empresas, que estudam à noite e que inauguram uma cultura de auto-ajuda iniciativa. É o horizonte que a maioria quer seguir - mas sem ter como segui-lo, sem instrumentos, nem ajuda. Eu entendo que a grande revolução no Brasil, hoje, seria que o Estado usasse os seus poderes e recursos para permitir à maioria seguir o caminho dessa vanguarda de batalhadores emergentes. Para isso, teria que inovar nas instituições econômicas e políticas. E aí está um grande problema, por que nossos dirigentes demonstraram historicamente uma completa falta de imaginação e de audácia. Nossa grande tarefa nacional, hoje, colocada em seus termos mais simples, seria instrumentalizar essa energia que vem de baixo. Aí há dois grandes projetos: um projeto de democratizar a economia de mercado e um projeto de aprofundar a democracia política. E isto vale para encarar a crise em todo o mundo.
Sobre a integração da América do Sul:
“Ao projeto de união sul-americana falta um coração, um cérebro. Ele é todo esqueleto, estrutura, não tem espírito. A União Européia teve duas premissas: ser um projeto de paz perpétua, para por um fim ao século das guerras européias, e ser um grande espaço de um modelo de organização social e econômica diferente do modelo dos EUA. Nós ainda não construímos na América do Sul uma contrapartida para isso; tratamos de comércio, de integração energética e logística, mas não tratamos do mais importante: qual é o nosso projeto, qual é o nosso caminho no mundo. Eu creio que a afirmação desse modelo, dessa trajetória, no Brasil, que é de longe o país mais preponderante da América do Sul, permitiria dar um coração, um cérebro, ao projeto de união sul-americana”.
Sobre as relações Brasil-EUA:
"Eu digo sempre que o Brasil é o país do mundo mais parecido com os EUA, embora essa semelhança não se reconheça, nem nos EUA, nem no Brasil. São dois países com tamanhos praticamente idênticos, fundados com as mesmas bases, população européia e escravidão africana, multiétnicos. Os mais desiguais do seu tipo: os EUA são os mais desiguais dos países ricos; o Brasil é o mais desigual dos grandes países em desenvolvimento. E, paradoxalmente, nesses dois países muito desiguais a maior parte dos homens e das mulheres comuns continuam pensando que tudo é possível. O Brasil tem, sobretudo agora, uma oportunidade extraordinária e considero que um compromisso crítico com os EUA. Eles estão buscando, neste momento, um momento de inflexão histórica, um sucedâneo ao projeto de [Franklin] Roosevelt. No Brasil, estamos em uma busca paralela de um novo modelo de desenvolvimento que transforme a ampliação das oportunidades econômicas e educativas, no próprio motor do crescimento econômico. Não se trata de discutir somente no nível das abstrações ideológicas; minha proposta é que construamos experimentos comuns nas instituições que definem a economia de mercado e a democracia - FMI, Banco Mundial, OMC, ONU. (...)
"O mais importante neste momento, nos EUA, é a atitude dos seus jovens. Mais de dez milhões de voluntários trabalharam gratuitamente na campanha de [Barack] Obama; são um sintoma desse momento incrível. Esse idealismo necessita de um rumo, necessita de imaginação. Tudo vai estar determinado pelo ambiente do país. Eu gostaria que esse movimento crítico no Brasil e nos EUA pudesse ajudar-nos reciprocamente a livrar-nos dos nossos pecados, eles de sua idolatria institucional e nós de nossa rendição institucional. Espero que os norte-americanos mantenham a pressão a serviço da Humanidade. Será muito importante para todo o mundo. E se os europeus despertam, porque o ritmo histórico diz que os europeus despertam nas guerras e adormecem na paz, seria ainda melhor."

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