ANZOL DE GALHO : AVALIAÇÃO DO USO DE ANZOL DE GALHO PELA PESCA NO PANTANAL PARTE 1

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 PARECER TÉCNICO

AVALIAÇÃO DO USO DE ANZOL-DE-GALHO

PELA PESCA NO PANTANAL

1.     Entende-se por anzol-de-galho como equipamento fixo de pesca, de baixa seletividade, dotado de anzol e linha, amarrado em galhos flexíveis de vegetação ciliar ou à vara de bambu (estaca) que pode ser afixada no barranco e leito de rio, lagoa marginal, corixos e vazantes, ou inserida na vegetação flutuante (camalote).

2.     Em Mato Grosso do Sul, seu uso ocorre nas bacias do Rio Paraná e do Paraguai, direcionado à captura de espécies carnívoras, topo de cadeia, migradoras, desovadoras de planície e com baixa fecundidade (espécies estrategistas K).

3.     Entende-se por espécies estrategistas (K) aquelas com cuidado parental (cuidado a prole) bem desenvolvido; período reprodutivo prolongado; desovas repetidas no período reprodutivo; classes de tamanho uniformemente distribuído ao longo do ano; longo período de procriação; ovócitos grandes; tamanho do corpo grande; pequenas flutuações populacionais ao longo do ano (Vazzoler, 1996). Entre as espécies se destaca o Pintado (Pseudoplatystoma corruscans) e o Cachara (Pseudoplatystoma fasciatum)

4.     Pelas suas características operacionais, pelo uso indiscriminado em estações e ambientes protegidos, pela baixa seletividade de captura e pelo seu impacto na captura incidental tem seu uso limitado pela legislação federal (Lei n.11.959 de 30 de junho de 2009) e estadual (Lei n. 3.886 de 28 de abril de 2010).

5.     Quanto as suas características operacionais:

5.1.          O Apetrecho é utilizado pela pesca profissional, amadora e de subsistência (moradores ribeirinhos), sobretudo na bacia do rio Paraguai, em seus tributários, corixos, vazantes e lagoas marginais com comunicação permanente ou sazonal aos rios.

5.2.          De uso predominantemente noturno, é utilizado em todas as estações do ano, inclusive no período de defeso (migração reprodutiva dos peixes, conhecida regionalmente como “piracema”), onde a pesca profissional e amadora são proibidas e a pesca de subsistência é autorizada.

5.3.          Devido a sua capacidade de camuflagem junto à vegetação ciliar e de uso predominantemente noturno, a fiscalização do seu uso é limitado. Entretanto, durante o período em que o uso de tal apetrecho fora proibido, eram elevados os índices de apreensão pelo órgão de fiscalização ambiental, seguido de redes, tarrafas e espinhéis.

5.4.          O uso diurno deste apetrecho, ou seu esquecimento, representa sério risco à navegação, sobretudo de pequenas embarcações motorizadas, que escolhem as mesmas áreas de fixação do apetrecho para seu deslocamento, em decorrência da profundidade destes locais.

5.5.          Nos ecossistemas onde não há vegetação ciliar, os pescadores utilizam estacas (principalmente de bambu) com anzol-de-galho na extremidade, inseridas na vegetação flutuante marginal. Estas vegetação é constituída por macrófitas aquáticas predominando Eichhornia crassipes, Pistia stratiotes, Hydrocotyle umbellata, Cyperus sp. e Lemna sp.

5.6.          Essa estrutura vegetativa proporciona condições para alimentação de várias espécies-alvo (adultos e imaturos) da pesca profissional, como também pequenos peixes que buscam proteção, tais como traíras (Hoplias malabaricus), tuviras (Eigenmannia spp., Hypopomus spp.), muçum (Synbranchus marmoratus), camboatá (Callichthys callichthys, Hoplosternum spp., Corydoras spp.), entre outros. Também, são encontrados nesses locais: caranguejos (Dilocarcinus pagei) e caramujos (Pomacea caniculata e P. scalaris).

5.7.          Trata-se de uma arte de pesca que consome um grande volume de iscas-vivas (pequenos peixes e caranguejo) e se transformou em um dos grandes problemas de conservação no Pantanal.

5.8.          As macrófitas aquáticas são comumente reviradas pelos pescadores profissionais e catadores de iscas, que extraem um grande volume de iscas para o abastecimento dos anzóis-de-galho. Em decorrência do baixo índice de sobrevivência pós-captura destas iscas, por falta de manejo adequado, o volume de captura é demasiadamente alto para compensar as perdas.

6.     Quanto as suas características de baixa seletividade:

6.1.          Não há padronização do tipo, grau de curvatura e tamanho do anzol, espessura e comprimento da linha, profundidade e tempo de imersão do equipamento.

6.2.          Não há padronização do tipo de isca-viva a ser utilizada (peixes, caranguejos, minhocoçú, etc). A seleção da isca-viva, pelo pescador, é feita mediante os seguintes critérios: atividade local da espécie-alvo, hábitos alimentares da espécie-alvo, disponibilidade local da isca e, na sua ausência, os custos para sua aquisição.

6.3.          A escolha e distribuição das unidades de captura (anzol-de-galho) não são aleatórias. Pelo conhecimento local, alguns critérios são utilizados na seleção do local de fixação de tal Apetrecho, a saber:

·          presença e mobilidade da espécie-alvo;

·          identificação dos canais de migração da espécie-alvo;

·          presença de sítios de forrageamento da espécie-alvo;

·          período de atividade de forrageamento da espécie-alvo;

·          presença de vegetação marginal com sombreamento;

·          presença de vegetação ciliar com frutificação;

·          presença de vegetação marginal pendente sob a água para camuflagem do equipamento;

·          ausência de obstáculos naturais no leito do rio.

6.4.          Observando as características operacionais, a escolha e distribuição das unidades de captura identificam-se os fatores que favorecem a captura indiscriminada de indivíduos adultos (sexualmente maduros) e juvenis (sexualmente imaturos).

6.5.          Espécies não comerciais e peixes que não podem ser embarcados e comercializados, por exemplo, por serem de tamanho inferior ao legalmente estabelecido, representa uma parcela significativa das capturas feitas por este Apetrecho.

6.6.          Os indivíduos imaturos (comerciais e não-comerciais) ou adultos (não comerciais) capturados por tal Apetrecho são liberados pelos pescadores por força da legislação - que define o tamanho mínimo de captura das principais espécies comerciais.

6.7.          Os indivíduos imaturos (comerciais) ou adultos (não comerciais) que, ocasionalmente, estejam vivos e liberados pelos pescadores terão poucas chances de sobrevivência em decorrência dos ferimentos provocados pelo Apetrecho e, principalmente, pelo stress fisiológico causado pelo longo período expostos aos fatores estressantes do ambiente (presença de predadores, variações da temperatura da água, variações da pressão atmosférica, etc).

6.8.          A elevada captura incidental de indivíduos jovens e pré-adultos por estes equipamentos sinaliza um sério problema para a manutenção dos estoques pesqueiros, caracterizando a ocorrência de “sobrepesca de crescimento”; entretanto, por se tratar de uma atividade não monitorada, não há dados relativos a este importante problema da conservação.   

6.9.          Entende-se por “sobrepesca de crescimento”, aquela quando houver pesca predatória de jovens e a de pré-adultos, impossibilitando-os de atingir o tamanho no qual o rendimento em peso seja máximo. 

6.10.        A baixa seletividade de captura esta representada pelo uso em diferentes períodos do ano, pela falta de padronização do Apetrecho, das iscas utilizadas, das diferentes profundidades e tempo de imersão do equipamento, nos diversos ambientes onde são posicionados e, principalmente, pela captura não-seletiva de espécies comerciais e não comerciais, em suas diferentes fases de desenvolvimento (adultos e imaturos).

7.     Quanto ao impacto na captura incidental de aves

7.1.          Entende-se por captura incidental todo ato de captura por arte de pesca, de forma não intencional ou acidental, que ocorre com freqüência média ou alta.

7.2.          A captura incidental de aves, tartarugas e várias outras espécies durante a pesca é reconhecida como um dos mais graves impactos ambientais das pescas comerciais em grande parte do mundo.

7.3.          A dimensão desta mortalidade é tal, que a captura incidental em algumas zonas de pesca marinha esta afetando a estrutura e o funcionamento dos sistemas ao nível da população, da comunidade e do ecossistema. Esta situação crítica motivou o Governo Federal a criar o Grupo de Trabalho de Capturas Incidentais na Atividade Pesqueira (Portaria IBAMA n. 83 de 06/11/2006), a fim de subsidiar o IBAMA em relação às estratégias para o monitoramento e a redução das capturas incidentais na atividade pesqueira, avaliando medidas mitigadoras adequadas aos diversos grupos de fauna, especialmente às ameaçadas de extinção e objetivando alcançar o estabelecimento e a manutenção de populações viáveis na natureza.

7.4.          A captura incidental por anzóis é mundialmente considerada a maior causa de mortalidade de aves e tartarugas marinhas (National Research Council, 1990; Oravetz, 1999; Brothers et al., 1999) causando o declínio de muitas espécies (Gales, 1997, Lewison et al. , 2004).

7.5.          A Mortalidade incidental de espécies de longa vida e com baixa taxa reprodutiva, causada pelo anzol-de-galho é um problema de conservação que afeta aves, répteis e mamíferos nos diferentes ecossistemas pantaneiros.

7.6.          As interações entre as aves e a atividade de pesca são complexas,  provavelmente depende também da ecologia e comportamento das diferentes espécies, bem como das condições locais e da experiência das aves.

7.7.          A paisagem, a configuração hidrográfica, a dinâmica das águas e a biodiversidade dos diferentes ecossistemas pantaneiros são fatores que propiciam a presença das aves coloniais, migradoras e seus predadores, enquanto que as mesmas favorecem a grande biodiversidade de tributários, corixos, vazantes e lagoas marginais no Pantanal.

7.8.          São ecossistemas de alta produtividade primária e importantes sítios de alimentação, repouso e reprodução de aves, sobretudo na primavera e verão com a chegada das chuvas. A presença de viveiros de peixe no local e a proximidade de ninhais são fatores que explicam a escolha destes locais pelas aves.

7.9.          Entretanto, há uma complexa sobreposição entre as áreas de forrageamento destas aves com as áreas de maior intensidade pesqueira, o que colabora com o incremento dos índices de captura incidental, sobretudo das aves que compõem os “ninhais pretos”.   

7.10.        Os ninhais pretos são constituídos pelas seguintes aves: biguá (Phalocrocorax brasilianus) e biguatinga (Anhinga anhinga). Estas colônias se formam quando o nível da água ainda esta alto no início da vazante, ao redor de maio, estendendo-se até dezembro. O período de reprodução estende-se até julho. São aves mergulhadoras e requererem uma lâmina de água profunda para poder pescar.

7.11.        À medida que as águas escoam e que a profundidade diminui, os biguás e biguatingas, com filhotes crescidos, realizam a dispersão pós-reprodutiva, deixando estes sítios para o próximo grupo. As garças (Egretta alba e Egretta thula), colhereiros (Platalea ajaja), cabeças-secas (Mycteria americana) e maguaris (Ardea cocoi) formam o “ninhal branco”. Estas espécies chegam ao ninhal em julho, quando as águas estão no nível mais baixo, permitindo o vadiamento das mesmas. Elas ficam até dezembro, quando as águas começam a subir. Essas aves, apesar de se alimentarem de pequenos peixes, possuem estratégias de forrageamento diferenciadas e, conseqüentemente, não aparecem na captura incidental.

7.12.        Durante as fases de enchente e de cheia não há aves coloniais no ninhal. Elas voltarão somente na próxima vazante. Isso se deve, provavelmente, ao fato de que a vazante coincide com a época de frutificação das várias espécies arbóreas no ninhal que podem atrair os peixes que alimentam desses frutos e que são o próprio alimento das aves.

7.13.        Muitas espécies de aves interrompem seus deslocamentos migratórios para o processo de muda das penas. Este requer alta demanda energética e para isso, as aves selecionam suas áreas de “paradas” ou pontos de “descanso”, de acordo com a qualidade, produtividade e risco de predação do local (Alerstan et al. 2003, Fedrizzi et al. 2004). Segundo Moore e Simons (1992) As aves coloniais alimentam-se, principalmente, de peixes (Hoplias malabaricus, Eigenmannia spp., Hypopomus spp., Synbranchus marmoratus, Callichthys callichthys, Hoplosternum spp. Corydoras spp.).  Estas mesmas espécies são consideradas iscas-vivas e amplamente utilizadas neste período devido à grande disponibilidade no ambiente.

7.14.        Variações ambientais, biológicas e operacionais da pescaria com anzol-de-galho podem influenciar as capturas incidentais de aves piscívoras (migratórias e coloniais) e répteis (cágados e jacarés) e nas interações com mamíferos.

7.15.        Há fortes evidências que as mesmas variáveis da captura incidental no ambiente marinho, podem estar atuando na captura incidental de aves piscívoras e répteis (cágados e jacarés) no Pantanal, com o uso do anzol-de-galho.   

7.16.        Algumas variáveis ambientais temporais (ex. ano, estação do ano, volume de água, velocidade da água, ventos, temperatura da água, pressão atmosférica, local de instalação e abundância de espécies-alvo) e operacionais (ex. tipo de isca, tipo de anzol, tempo de imersão do anzol e profundidade do anzol e isca) podem influenciar a abundância de aves ao redor das iscas, sobretudo nos períodos de maior atividade alimentar das espécies e, conseqüentemente afetar a captura incidental.

7.17.        Entre os fatores que podem influenciar o índice de prevalência de aves piscívoras capturadas pelo anzol-de-galho, a abundância destas aves pode ser um dos mais importantes.

7.18.        Entretanto, algumas espécies de aves piscívoras, que forrageiam sobre os mesmos recursos alimentares restritos e localizados de peixes de grande porte, fazem grandes mergulhos e pescarias coletivas e estratégicas, são mais susceptíveis à captura incidental, independente da abundância, como é o caso do Biguá (Phalocrocorax brasilianus).

7.19.        O poder competitivo das espécies piscívoras, devido ao tamanho corporal e idade, também contribuem na ocorrência diferenciada de captura incidental destas aves pelo anzol-de-galho.

7.20.        Conhecer como estas variáveis influencia a captura incidental de aves piscívoras por anzol-de-galho, pode subsidiar estratégias de conservação e o disciplinamento no uso destes Apetrechos fixos, a fim de minimizar a mortalidade destas espécies e garantir o equilíbrio ambiental.

7.21.        Análises multivariadas principalmente modelos de regressão logarítmica podem ser utilizadas para estudar a relação entre o uso de anzol-de-galho e a captura incidental de aves e répteis, bem como mudanças das variações ambientais, táticas de pesca e uso de medidas mitigadoras (Brothers, et al. ,1999, Weinerskinch, et al., 2000; Reid & Sullivan, 2004; Laich et al., 2006; Laich & Favero, 2007).

7.22.        Para testar a hipótese do que o número de aves, répteis e mamíferos é afetado por variáveis ambientais, biológicas e operacionais no uso do anzol-de-galho, pode-se fazer uso de Análise Multivariada, Análises de Componentes Principais (PCA) (Johnson & Wichern, 1992) e Modelos Lineares Generalizados (GLM) (McCullagh & Nelde, 1989).

8.     Quanto ao impacto na captura incidental de répteis

8.1.          Os quelônios, de modo geral, carregam o estigma de “mau agouro”, motivo pelo qual são submetidos a uma histórica perseguição por parte dos homens. É comum também o seu sacrifício visando a manipulação de fórmulas “medicinais” de poderes curativos e revitalizantes. Além disso, a carne de cágado costuma fazer parte da dieta das populações ribeirinhas. Esse conjunto de práticas, associada à captura incidental pelo uso do anzol-de-galho pode levar a extinção local das espécies.

8.2.          Embora a captura incidental de répteis seja razoavelmente pequena comparada com as aves piscívoras, o impacto da captura incidental nestas pescarias para quelônios piscívoros, como os cágados (Phrynops geoffroanus e Acanthocelys macrocephala) é grande porque a população é pequena, disjuntas e restritas a um único sítio de alimentação.

8.3.          Os padrões de atividade dos quelônios no Pantanal, em geral, estão intimamente associados às condições climáticas, sendo que o índice de precipitação pluviométrica e a temperatura do ar ou da água incluem-se entre os principais fatores ambientais que moldam o ritmo do comportamento das espécies. Os quelônios no Pantanal utilizam os lagos marginais e pequenos tributários do Pantanal para reprodução e alimentação.

8.4.          Os quelônios (cágados) possuem hábito onívoro, consomem grandes quantidades de sementes, frutos, insetos e peixes, se alimentam tanto de dia como à noite, tornando-os presas potenciais da captura incidental tanto de dia, como de noite. O cágado Acanthochelys macrocephala por ser uma espécie pouco ágil, tem dificuldade em caçar presas com movimentos rápidos (Molina, 1990; Molina et. al., 1998), provavelmente isto esteja contribuindo com a sua ocorrência na captura incidental pelo anzol-de-galho.

8.5.          A captura incidental de Jacarés (Cayaman crocodilus yacare) na pesca de anzol-de-galho é, atualmente, uma das grandes ameaças ao equilíbrio das populações locais. Devido à alta produtividade das lagoas marginais e tributários, é intensa a instalação de Apetrechos fixos (espinheis e anzol-de-galho) pela pesca profissional, o que vem colaborando com a incidência de captura incidental deste grupo.

 

8.6.          Existem poucos trabalhos na literatura sobre o efeito de variáveis ambientais e operacionais na captura de cágados e jacarés pela pesca profissional. No ambiente marinho a captura incidental de quelônios é bem relatada nos estudos de Watson et al. 2005 e Pradhan & Lougu, 2006).

8.7.          Durante os estudos de populações de peixes, que realizamos na bacia do rio Piquiri (1993-1997) e no rio Negro (2001-2004), registramos a captura de cágados e jacarés com o uso de anzol-de-galho. Dos indivíduos capturados registramos animais fisgados, ou tinha o anzol preso ao bico ou engoliram o anzol. Todos os quelônios foram sacrificados e os jacarés liberados com o corte da linha. 

8.8.          Há relatos de cágados e jacarés que se enrolaram a linha (quando longa) ou tiveram o anzol inserido externamente.  

8.9.          Observando a literatura científica, há fortes evidências que as mesmas variáveis marinhas podem definir a captura incidental de cágados e jacarés no Pantanal, entre as quais, destacamos: a profundidade dos anzóis, o tipo de isca, o tipo e tamanho do anzol     ( “J” e circular) e o tempo de imersão do equipamento.

8.10.        Não há dúvidas que incidência de cágados e jacarés capturados esteja provavelmente relacionada com os seus hábitos alimentares. Como essas espécies são onívoras e oportunistas, as tornam mais susceptíveis à captura em anzol-de-galho por consumir as iscas que estão presas aos anzóis.

8.11.        Conclui-se que a maioria das capturas incidentais de cágados ocorre pela fixação do anzol preso ao bico ou com o anzol preso externamente ao corpo (nadadeiras, ombros e axilas). Nos jacarés a fixação do anzol nas mandíbulas é expressiva.  Entretanto, nos dois grupos, a ingestão do anzol seja provavelmente a forma mais letal de interação com o anzol-de-galho.

8.12.        Os estudos de Chaloupk et al. (2004) identificaram maior taxa de mortalidade de tartarugas Caretta caretta que ingeriram o anzol do que aqueles com anzol preso na boca ou externamente. Estes estudos também sugeriram que ferimentos graves causados pela captura podem ocasionar a morte de tartarugas até 90 dias após a liberação.

8.13.        Uma prática comum dos pescadores profissionais quando da captura incidental de cágados é a retirada do anzol e solta-los imediatamente, onde o risco de morte deve ser considerado. Outra prática, muito mais usual, é matar o animal e soltá-lo, transformando-os em alimento para as piranhas. Pescadores ribeirinhos raramente os descartam, pois, os incorporam à sua dieta. 

8.14.        No caso do Jacaré preso ao anzol-de-galho, a prática usual é golpear o animal com o remo da embarcação, com golpe de facão ou abatê-lo com arma de fogo.

8.15.        O modelo de anzol selecionado pode representar uma maior ou menor taxa de captura de pescado e consequentemente, na captura incidental. O anzol-de-galho mais utilizado no Pantanal são os de modelo “J”. A simples substituição dos modelos circulares do tipo “tuna hook”, poderia reduzir a captura incidental tanto de aves como de cágados e jacarés.

8.16.        Os anzóis circulares em substituição ao “J” tem demonstrado ser uma medida eficiente na redução de captura de tartarugas marinhas em muitas áreas estudadas (Watson et al., 2005). Análises específicas sobre a eficiência de anzóis circulares na redução de captura de tartarugas marinhas estão sendo realizados pelo Projeto Tamanr/ICMBio. No Pantanal nenhum estudo neste sentido foi realizado.

CONTINUA PARTE 2

quarta 28 julho 2010 05:45


ANZOL DE GALHO: AVALIAÇÃO DO USO DE ANZOL DE GALHO PELA PESCA NO PANTANAL PARTE 2

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PARECER TÉCNICO

AVALIAÇÃO DO USO DE ANZOL-DE-GALHO

PELA PESCA NO PANTANAL – PARTE 2

 

8.17.        A longa permanência de cágados e jacarés presos ao anzol-de-galho os transforma em presas fácil para a ação de piranhas (Pygocentrus nattereri, Serrasalmus marginatus e S. spiloleura), que são atraídos pelos seus movimentos de agonia ou, quando mortos por afogamento.

8.18.        A alta incidência de predação dos peixes capturados por anzol-de-galho por jacarés levou ao imaginário popular que a diminuição da taxa de captura de peixes deve-se a ação predatória dos jacarés.

8.19.        Não existe estudos na literatura científica que comprove a diminuição dos recursos pesqueiros devido a ação desses répteis.  

9.     Quanto a interação com mamíferos

9.1.          No Pantanal, a pescaria com anzol-de-galho também interage com mamíferos, principalmente com a Ariranha (Pteronura brasiliensis) e Lontra (Lutra longicaudis), trazendo sérios prejuízos à conservação destes mamíferos.

9.2.          Embora a pescaria com anzol-de-galho disponibilize para as ariranhas um alimento fácil e que, possivelmente, não seria consumido em condições naturais, as depredações também podem ter impactos negativos também para a atividade pesqueira. 

9.3.          Embora as depredações ocorram com baixa freqüência e na maioria das vezes com perdas insignificantes, as perdas podem ser significantes devido ao valor das espécies capturadas.

9.4.          As depredações por piranhas (Pygocentrus nattereri, Serrasalmus spilopleura e S. marginatus) e Jacarés (Cayaman crocodilus yacare) provavelmente implica, também, em uma redução do número de indivíduos capturados, a ser disponibilizado à atividade comercial.  

9.5.          O número de iscas depredadas por estes mamíferos é muito variável, o que pode estar relacionado com variações no tamanho dos grupos que interagem com a pescaria.

9.6.          É possível que indivíduos solitários ou grupos pequenos possam depredar as iscas contidas no anzóis-de-galho em que o número de iscas depredadas seja menor do que o número de peixes capturados e que em lances com depredação e capturas elevadas grupos grandes tenha causado a depredação.

9.7.          Entretanto, informações sobre o número de mamíferos que depredam os peixes (iscas) é difícil de ser obtida devido ao grande número de anzóis-de-galho em uma determinada área explorada pela pesca profissional.

 

9.8.          O avistamento de lontras (Lontra longicaudis) em uma determinada área é fator determinante de não fixação dos anzóis-de-galho por pescadores profissionais, como estratégia de reduzir a depredação de suas iscas. Estes animais, de hábito noturno ou crepuscular, alimentam-se, sobretudo, de peixes. Já a presença de ariranhas não preocupa os pescadores, que apesar de se alimentar de peixes tem hábitos diurnos.

9.9.          O impacto entre lontras com a pesca de anzol-de-galho é um problema real, com registros em praticamente em todas as pescarias que utilizam esta arte de pesca.

9.10.        Os prejuízos causados pelas depredações de iscas por estes para os pescadores como um todo, pode parecer baixas, mas para os pescadores com pouca mobilidade ou com deslocamentos limitados, estas depredações podem representar um alto custo.

9.11.        Salientamos que as perdas podem ser somente com às depredações, mas a presença  de lontras e ariranhas na área de pesca, faz com que pescadores mudem de área, aumentando os gastos com combustível e alimentação.

9.12.        Infelizmente, muitos pescadores por não disporem dos recursos necessários para uma transferência de área de pesca, o abate destes animais passa a ser a única alternativa para a manutenção da atividade pesqueira no local.

Conclusão

Pelas características operacionais, pelo uso indiscriminado em estações e ambientes protegidos, pela baixa seletividade de captura, pelo seu impacto na captura incidental de aves e répteis e de sua interação com répteis e mamíferos, o anzol-de-galho é um equipamento predatório para uso na bacia do Alto Paraguai. O único modo eficaz de evitar a captura incidental na pesca é suspender o uso deste equipamento particularmente prejudicial ao equilíbrio das populações naturais desta bacia.  

Thomaz Lipparelli

Biólogo, Mestre e Doutor em Zoologia pela UNESP

CRBio 06974-01

Diretor Técnico do Instituto Pantanal de Proteção à Natureza - IPPN

 

 

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19.   Watson, J. 1996. The behaviour, population, biology and physiology of the Petrels. London, Academic Press. 613p.

20.   Watson, J.W.; Epperly, S.P. Shah, A.K. &  Foster, D.G. 2005. Fishing methods to reduce sea turtle mortality associated with pelagic longlines. Canadian Journal of Fisheries and Aquatic Sciences. 62: 965-981.

21.   Weimerskinch, H.; Capdville, D. & Duhamel, G. 2000. Factory affecting the number and mortality of seabirds attending and long-liners in the Kerquelen area. Polar Biol. 23: 236-249.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta 28 julho 2010 12:16


PESCA PREDATÓRIA NO PANTANAL - A CULPA É DO JACARÉ

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Interessante, para não dizer esdrúxula, as declarações do então Ministro da Pesca, Sr. Altemir Gregolin, ao defender a Lei da Pesca que tramita na Assembléia Legislativa de Mato Grosso do Sul.  

A pirotecnia das suas declarações e a canhestra atuação do seu Ministério na formulação de políticas para a pesca profissional (extrativista) deste Estado evidencia como ele se deixou contaminar pela ideologia justiceira deste famigerado Projeto de Lei da Pesca encaminhado do executivo ao legislativo.

Suas declarações acabaram colaborando na transformação de uma discussão técnica em uma espécie de espetáculo circense de péssimo gosto. Para não dizer que suas palavras em nada contribuíram no debate, é digno de louvor a seguinte frase: “não acho justo que os pescadores artesanais sejam prejudicados pela redução dos estoques pesqueiros”.

Finalmente, temos uma declaração oficial, do próprio Ministro da Pesca, de que há uma redução dos estoques pesqueiros! Ou alguém ainda duvida que ela não exista? Segundo dados da FAO a maior parte dos recursos pesqueiros do planeta (cerca de 80%) encontra-se explotados ao máximo, sobreexplotados ou colapsados. Ou seja, o cenário mundial da pesca é de crise e o Pantanal não fica de fora desta discussão.

A exploração indiscriminada dos estoques pesqueiros do Pantanal, atualmente próximos do seu limite auto-sustentável, e a crescente diferença entre a quantidade de peixe capturado e a demanda de consumo, esta tornando a piscicultura uma das alternativas mais viáveis para produção de alimentos para consumo humano de alto valor protéico.

Porque nossos representantes têm medo de abrir este debate com a sociedade? Estamos falando da busca de soluções e não dos culpados.

No cenário nacional, os índices de produtividade da pesca extrativista vêm diminuindo em relação à aqüicultura (piscicultura), entretanto, o que poderia ser considerada uma grande oportunidade para o Mato Grosso do Sul, em decorrência da sua disponibilidade hídrica, condições climáticas excepcionais e tecnologia disponível para produção de espécies nativas, esta se tornando um grande pesadelo, principalmente para os pequenos e médios produtores de pescado.

A falta de incentivos fiscais, os elevados custos dos insumos produtivos e o reduzido consumo interno de pescado, entre outros fatores, mostram a falta de políticas públicas apropriadas para o desenvolvimento da produção pesqueira deste Estado. Será que faltam informações ou as informações disponíveis não são confiáveis para estabelecer estas políticas?  Porque os dados pesqueiros produzidos pela Secretaria de Meio Ambiente em parceria com a Embrapa Pantanal nunca foram utilizados nos Anuários de Pesca do Governo Federal?

Os números disponíveis da pesca profissional em nosso Estado mascaram a realidade e dificultam ainda mais a busca de soluções para o setor da pesca profissional.

Veja por exemplo algumas “distorções numéricas” que comprometem a formatação de políticas públicas. Segundo os Estudos da Embrapa Pantanal, nos 121.000 Km² da Bacia do Alto Paraguai, atuam 1.142 pescadores profissionais que retiram anualmente aproximadamente 300 toneladas de peixe/ano.

No Lago Paranoá, segundo os Anuários de Pesca do Ministério do Meio Ambiente, em seus 40Km² - onde atuam 233 pescadores profissionais, a produção pesqueira é de 300 toneladas/ano de peixes!

É forçoso acreditar que a produção pesqueira do Lago Paranoá (com seus 40Km² e 233 pescadores) tenha aproximadamente a mesma  produção de todo o Pantanal sul-mato-grossense (com seus 121.000 Km2 e 1.142 pescadores (ou seriam 4.000? ou 5.000?).  Não podemos esquecer que a pesca profissional no lago Paranoá tem seu esforço concentrado na tilápia.

Outra “distorção numérica” que nos intriga é quando comparamos a produção pesqueira do Paraguai com a de Mato Grosso do Sul. Segundo dados da FAO, a produção pesqueira proveniente da pesca profissional no país vizinho é de 20.000 toneladas/ano e aqui na BAP, segundo a Embrapa Pantanal é  de 300 toneladas/ano!

A título de curiosidade: a área de pesca profissional no Paraguai é equivalente a área total do Estado de Mato Grosso do Sul e o número de pescadores é aproximadamente a metade do número de pescadores apontados pela Embrapa Pantanal (1.142) que atuam na BAP! Como explicar estes paradoxos? Ou o Paraguai tem alta piscosidade em seus rios ou a BAP tem pouco peixe?

A falta de informações técnicas e científicas qualificadas, compromete, sobretudo no Pantanal, a formatação do Ordenamento Pesqueiro (conjunto de normas e regras estabelecidas para a atividade).

O Ordenamento Pesqueiro não pode ser talhado simplesmente com a liberação de armadilhas e nem com a liberação de novas carteiras de pescadores, quanto menos “flexibilizando a legislação” como defendida por alguns iluminados.

O Ordenamento deve refletir políticas públicas focadas na sustentabilidade e jamais pautada em benefícios para um ou outro segmento.

Assim, Sr. Ministro da Pesca, também “não achamos justo que os pescadores artesanais sejam prejudicados por esta Lei”. Espero, sinceramente, que os pescadores ribeirinhos - que merecem todo nosso respeito, saibam que a aprovação desta Lei trará, em curto espaço de tempo: a) milhares de novos pescadores com carteira dentro dos rios, b) milhares de novos pescadores de outros estados, com maior poder aquisitivo e que farão uso dos equipamentos modernos de captura (ecolocalizadores de cardumes, redes e tarrafas), c) milhares de novos pescadores passarão a buscar os benefícios oferecidos pelo Governo (não haverá seguro desemprego para todo mundo!), d) centenas de novos motores de popa estarão poluindo nossas águas e solapando as margens de nossos rios, e) embarcações estrangeiras estarão pescando livremente em nossas águas, f) que haverá uma disputa ou faltará “galhos” nas margens dos rios para fixar tantos anzóis e os “varões” passarão a ser a última alternativa para fixar seus anzóis;  g) que a navegação a noite será de alto risco pelo grande volume de garrafas pet’s transportando anzóis (cavalinhos e joão-bobo), h) que haverá acidentes fatais em decorrência dos milhares de anzóis fixados em cabo-de-aço (espinheis) ligando as margens dos nossos rios, i) que o valor do pescado cairá rapidamente graças a lei da oferta e da procura e da “ajudinha” do atravessador que continuará a mante-los na subserviência.

Tudo é uma questão de tempo. Aliás, muito em breve não haverá peixe para todos. Se este projeto de lei for aprovado, em dois anos haverá dois caminhos para os pescadores profissionais: procurar emprego no Turismo de Pesca – se ainda existir, ou propor ao governo e à Assembléia Legislativa uma Lei da Caça ao Jacaré... é quem vai, no final, pagar a conta.

Obs. O projeto foi aprovado pela Assembléia Legislativa em 15/12/2009 com vinte votos favoráveis e quatro (heróicos) votos contrários da bancada do PT.

Thomaz Lipparelli, biólogo Mestre e Doutor em Ictiologia pela UNESP. Professor Universitário. Conselheiro da Sociedade Brasileira de Ictiologia (2001-2006).

segunda 15 março 2010 21:31


O MEDO DAS MUDANÇAS E A DESTRUIÇÃO DE NOSSOS PEIXES

Blog de pantanal :PANTANAL SUSTENTÁVEL, O MEDO DAS MUDANÇAS E A DESTRUIÇÃO DE NOSSOS PEIXES

Vivemos em um Estado em profundas e rápidas transformações que surpreendem, deixam as pessoas perplexas, angustiadas. As mudanças aceleradas abalam conceitos, usos e costumes, não permitindo o tempo necessário para a adaptação às novas situações. É a crise. Da mesma forma, as mutações em curso na economia, no trabalho, no meio ambiente e na vida das pessoas parecem indicar que a crise não é passageira, ao contrário, faz parte dos novos tempos. Novos tempos nos quais as pessoas estão confrontadas com uma situação completamente nova, que exige respostas também novas, um novo paradigma.

Infelizmente, ainda existe uma considerável continuidade no modo de pensar os problemas decorrentes das nossas relações com o meio ambiente, porque esbarram no processo político e no pensamento econômico, resultando na medida mais conhecida: empurrar para frente e para as outras gerações os problemas que hoje estão se apresentando. O uso dos recursos naturais (incluindo a pesca extrativista) não foge desta lógica.

A preocupante realidade da pesca extrativista, se traduz não só na agressão ao meio ambiente e de má qualidade de vida dos pescadores, mas na banalização de tudo que tenha a ver com os pescadores; “as coisas são assim, sempre foram assim”.

Para nós que valorizamos a conservação da natureza como fator fundamental da qualidade de vida, essa situação sugere que devemos fazer análises que precisam ir além do “bom senso” ou de uma leitura superficial e jornalística dos fatos.

Pode-se pensar em qualidade de vida para os nossos pescadores se continuarmos desconsiderando o cumprimento das leis e usando os recursos naturais sem pesar no futuro?

Ao indagarmos sobre os limites ecológicos deste processo produtivo extrativista equivocado, nos coloca no reverso dos processos de desenvolvimento econômico, na medida em que reflete sobre os elementos-chave para pensar outra sociedade na qual o desenvolvimento necessariamente não precisa ser “destruir”, e onde a geração de valores pode ser sustentável e inclusiva.

O caminho para o desenvolvimento sustentável não é um caminho que leva de volta a formas de vida arcaicas, como alguns defendem, mas para um futuro com novas chances econômicas e sociais.

Os debates políticos que presenciamos na discussão da Lei da Pesca de MS em 2006 e novamente em 2009, foram extremamente “rasos”, desqualificados do ponto de vista técnico e sem qualquer criatividade que apontassem, a estes pescadores e à sociedade como um todo, um futuro melhor.  A ausência de responsabilidade ambiental de nossos representantes políticos aparece como representação significativa da contemporaneidade e estão associadas às características das mudanças em curso.

As mudanças em curso são seguidamente vividas como uma fatalidade, sendo grande o número daqueles que, sem se referir explicitamente a este termo, redescobrem uma definição trágica da história. A grande maioria dos pescadores profissionais vive em condições de miserabilidade e manifesta um comportamento predatório frente ao meio ambiente, que concorre para uma grande “desilusão” frente ao presente.  Desilusão que se expressa na valorização do passado (abundância de pescado e ausência de controle) e por uma forte apreensão quanto ao futuro. Desilusão que se manifesta, principalmente, através da atitude de resignação e passividade, tornando-os vítimas daqueles que os acolhem politicamente.  Neste “caos social”, alguns políticos se nutrem, buscando seus votos eleitorais.

Os fatos e as informações revelam que seguidamente a imagem de Mato Grosso do Sul, projetada no cenário nacional, é que possui uma sociedade desorganizada e caracterizada muito mais por fracassos que por situações de realizações e sucessos.  Logicamente, que as coisas não são bem assim. As pessoas estão conscientes e atentas aos problemas ambientais deste Estado (inclusive da pesca), mas a vida pessoal ou os projetos íntimos, particulares, os mantém relativamente imunizados para pensar alternativas a partir de uma dimensão mais ampla e coletiva. Se estamos estagnados é porque temos medo de mudanças.

A sociedade (incluindo os políticos) tem medo de mudanças e isto reflete diretamente no IDH (índice de desenvolvimento humano) de nosso Estado. A visão negativa da mudança é alimentada e se dá em função de algumas ausências:

1.       Ausência de uma interpretação crível dos processos e dos fenômenos sociais que estão acontecendo em nosso Estado; a fragilidade das explicações técnicas dadas pelas instituições críveis (órgãos públicos, instituições de pesquisas e universidades) que, em princípio, teriam por vocação representar os diversos segmentos da sociedade, mas não convencem ou mobilizam mais as pessoas.

2.       Ausência do político no sentido mais amplo, quando pensado em termos não tradicionais de participação ativa na vida das pessoas e fora da representação ritualística das eleições. Na verdade, o social e as coisas que acontecem parecem como soltas, desarticuladas, e a sensação é de que não há, e não se sabe quais são forças sociais ou forças políticas capazes de conduzir as mudanças.

3.       Ausência de pensamento crítico e alternativo. O pensamento único é a expressão cultural de uma sociedade ultrapassada, cuja atitude passiva é confortada e dissimulada pelo descrédito e priori do pensamento crítico.

Na verdade, as pessoas não se sentem mais comprometidas pelas transformações, porque elas vêm de cima para baixo, dos aparelhos políticos, e não são construídas a partir do consenso ou da participação das pessoas. As reformas institucionais, tão necessárias, que visam e buscam criar novas condições de funcionamento de um sistema político se apresentam bloqueadas e não dizem respeito à vida concreta das pessoas ou da vida coletiva.

A dinâmica da degradação do meio ambiente em nosso Estado concorre para que haja a superposição de diferentes realidades sociais:  na planície pantaneira a preocupação ecológica está submergida e que a solução dos múltiplos problemas sociais de base devam vir de fora; no  planalto, está limitada aos processos de articulação econômica e abertura de mercado.

A imprecisão sobre a que grupo pertencemos, as hesitações frente ao modelo de desenvolvimento econômico que se projeta, o descrédito quanto às instituições públicas, ao sentimento de perda consecutiva e a sensação de impotência diante de um futuro, passa a ser a marca da referência a um passado abusivamente super-idealizado de sucesso e desenvolvimento.

Este cenário constituinte da sociedade sul-mato-grossense contemporânea mistura perda e um passivo ambiental que se forma a partir de um profundo sentimento de “menos valia”, de não ser tratado de forma justa pela sociedade.  Esta percepção facilita o assistencialismo populista e a ênfase no registro da queixa e nada mais. 

No entanto, neste mesmo cenário abre-se uma possibilidade social inovadora, porque esta realidade se reveste de uma situação paradoxal que é potencialmente capaz de ressignificar o presente. O número cada vez maior do protesto moral dos indivíduos, isoladamente, ainda que pontual frente ao processo de degradação ambiental, se manifestarão através dos seus votos nas eleições que se aproximam.

Espero que tenhamos tempo em salvar nossos peixes e os pescadores profissionais, daqueles que deveriam defendê-los. Eis a nossa motivação.

Thomaz Lipparelli

Biólogo, Mestre e Doutor em Ciências Biológicas pela UNESP

Especialista em reprodução de peixes netropicais

Diretor Técnico do IPPN - Instituto Pantanal de Proteção à Natureza

 

domingo 07 fevereiro 2010 12:45


CENTRO NACIONAL DE PESQUISA DO PANTANAL

Blog de pantanal :PANTANAL SUSTENTÁVEL, CENTRO NACIONAL DE PESQUISA DO PANTANAL

Mato Grosso do Sul é um dos Estados da Federação que menos investe em C&T. Segundo o levantamento realizado em 2009 pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, Mato Grosso do Sul perde somente para os Estados do Amapá, Rondônia, Roraima, Alagoas, Piauí e Sergipe. Na região Centro-Oeste, Mato Grosso do Sul é o Estado que menos investe em C&T. Quem sabe esta seja a “explicação técnica” do porque da escolha do Ministério da Ciência por Mato Grosso para sediar o CNPP – Centro Nacional de Pesquisa do Pantanal.

No balanço geral dos Estados, a partir do levantamento realizado pelas Secretarias Estaduais de Ciência e Tecnologia, publicado em 2009 pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, os investimentos em C&T no Centro Oeste em 2006 foi de R$ 66.483,3 milhões; em 2007 alcançou R$ 71.661,4 milhões e em 2008 chegou aos R$ 143.748,3 milhões. O Distrito Federal investiu em 2008 R$ 68.504,1 milhões, Goiás ficou em segundo lugar nos investimentos com R$ 26.589,8 milhões, Mato Grosso investiu R$ 36.190,3 milhões e Mato Grosso do Sul foi o Estado que menos investiu, com R$ 12.464,0 milhões. (acesse htpp://www.mct.gov.br/index.php/content/view/8842.html).

Supostamente donos da verdade, num típico raciocínio de formiga, alguns técnicos de Mato Grosso do Sul fizeram duras críticas quanto a criação do CENTRO NACIONAL DE PESQUISA DO PANTANAL, que acaba de ser instituído pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) com um significante aporte financeiro previsto NO PPA – 2008/2011(veja artigo abaixo).

Segundo “cabeças coroadas” haveria uma sobreposição de ações entre o CPP – Centro de Pesquisas do Pantanal (uma ONG) e o INPP.  Não vejo assim. Na verdade, o que estão em jogo são os recursos que serão destinados à região pelo Governo Federal. Algumas instituições públicas e Ong´s que atuam no Pantanal estão prevendo um significativo corte de recursos destinados às suas atividades.

Como pesquisador, espero que a criação do CNPP traga profundas mudanças nos critérios nos financiamentos do MCT aos projetos desenvolvidos na região pantaneira. Que os projetos a serem financiados sejam criteriosamente selecionados quanto aos seus méritos (técnico e científico) e pela qualidade dos seus pesquisadores. Esperamos que haja transparência no processo seletivo das propostas, uma maior agilidade na liberação dos recursos, um maior controle nos investimentos junto às instituições apoiadas e, sobretudo, um criterioso sistema de monitoramento dos resultados dos projetos financiados.

Os “nanicos de pensamento”, na teoria, defendem a manutenção do “trabalho em rede” do CPP, mas na prática postulam divisões geopolíticas e choram os recursos que deixarão de ser aportados em suas contas. As redes, quando bem administradas, poderão trabalhar em perfeita sintonia com o CNPP. Aliás, as redes existem para atender as necessidades de uma região e não de instituições e pesquisadores.

A escolha da UFMT como sede do CNPP, questionado pelos opositores, tem seus méritos. Trata-se de uma instituição renomada e comprometida com resultados. Tem visão produtivista e não lesionada quanto à conservação da natureza. Forma massa crítica de qualidade e influenciam políticas públicas. Faz investimentos e mostra os seus resultados. Que sirva de parâmetro às instituições inconformadas com a escolha da UFMT em sediar o CNPP.

Mais uma vez Mato Grosso do Sul expõe suas fragilidades administrativas e incompetência política para atrair investimentos - desta vez em Ciência e Tecnologia. O quadro é compreensivo: os raríssimos eventos científicos em nosso Estado, só existem pela determinação isolada de alguns pesquisadores e instituições. Os intercâmbios internacionais estão desaparecendo por falta de investimentos, e só são mantidos graças às relações pessoais dos pesquisadores. As universidades públicas e privadas recebem “migalhas” do órgão de fomento do Estado, que por sua vez não consegue sensibilizar seus “dirigentes políticos” a ampliar os investir para o desenvolvimento tecnológico deste Estado. O número de bolsas de Mestrado e Doutorado é irrisório frente à procura.

Resultado: Mato Grosso do Sul esta entre os Estados que menos investem em C&T e na formação e capacitação de jovens pesquisadores. É muito triste ver o grande número de pesquisadores (mestre e doutores) deste Estado, abandonar seus projetos por falta de incentivos e terem que migrar para outros Estados na busca de oportunidade de trabalho.

Parabéns Mato Grosso. Parabéns UFMT. Desejo sucesso ao CNPP/MCT e aos seus futuros gestores. Que o Pantanal não seja mais utilizado como instrumento de extração de recursos para atender às famigeradas “redes de interesses”, no mínimo duvidosas. Que os verdadeiros pesquisadores que atuam no Pantanal, tenham dias mais felizes com o CNPP/MCT. 

Resta-nos uma pergunta: o que acontecerá com o Centro de Pesquisa Agropecuária do Pantanal (CPAP – Embrapa)? Haveriam sobreposições das ações?

 

Primeira unidade de pesquisa do MCT no Pantanal terá sede em Cuiabá

O Centro Nacional de Pesquisa do Pantanal terá como sede a capital mato-grossense, Cuiabá. A Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) cedeu, em regime de comodato, um terreno de 20 mil metros quadrados, dentro do campus, onde será erguido o edifício, que terá o projeto arquitetônico ecologicamente sustentável. "Isso significa que o prédio será construído de modo a reaproveitar, por exemplo, a água e o lixo, diminuindo o impacto no meio ambiente" explica Maria Luiza Alves, coordenadora Geral de Gestão de Ecossistemas do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT).

O centro será a primeira unidade de pesquisa do MCT no bioma do Pantanal e é uma ação do Plano Plurianual (PPA) 2008-2011, que prevê a criação de um instrumento de estudo e desenvolvimento científico na região. O objetivo é promover a formação de redes temáticas, articulando órgãos de fomento, instituições de ensino e pesquisa governamentais ou privadas, assim como empresas e organizações da sociedade civil. Tudo isso sem esquecer a formação de recursos humanos especializados.

Além disso, o centro implementará ações estratégicas, coordenará projetos de pesquisas nas diversas áreas temáticas voltadas para o bioma Pantanal, organizará um banco de dados sobre as informações geradas a partir dos trabalhos científicos e tecnológicos e promoverá a capacitação de recursos humanos e a disseminação de conhecimento.

Para isso, foram reservados R$ 8 milhões para sua construção e implementação até 2011. "Para este ano estão destinados R$ 1,5 milhão", destaca Maria Luiza Alves. A UFMT será responsável pela licitação da obra, mas os recursos serão do MCT. (Fabio Lino - Assessoria de Comunicação do MCT)

Fonte: http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/74028.html/ acessado em 03/02/2010

 

 

quinta 04 fevereiro 2010 00:46


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