A MORTANDADE DE PEIXES NO RIO NEGRO(*)
Thomaz Lipparelli
Biólogo, Mestre e Doutor em Biologia de Peixes Neotropicais pela UNESP
Ex-Superintendente de Pesca e Recursos Hídricos de MS
(*)Artigo Publicado no Jornal Correio do Estado, edição 04/02/2010
As alterações limnológicas naturais, no mundo todo, provocam mortandades de peixes. Entretanto no Pantanal, há uma alteração natural de grande magnitude chamada regionalmente de "dequada". Apesar de o fenômeno ser bastante conhecido pelo homem pantaneiro, pouco se sabe, cientificamente, as suas implicações ecológicas. A falta de sua compreensão faz com que muitos não saibam diferenciar o fenômeno de uma mortandade natural e aquela provocada pelo homem.
Do ponto de vista natural, este fenômeno pode funcionar como fator regulador da estrutura e da dinâmica das comunidades aquáticas, afetando sensivelmente os peixes e outras estruturas, tais como os organismos que compõem de sua dieta.
As variações do nível de água e do período de inundações, provoca uma série de interações entre os ambientes aquáticos e terrestres, resultando no aumento ou diminuição do pH, da concentração de sais, da concentração de gases (oxigênio, gás carbônico e metano) e dos nutrientes (fósforo, carbono e nitrogênio), entre outros elementos. Estas alterações podem provocar a deterioração da qualidade da água, tornando insustentável à vida dos organismos aquáticos.
A permanência da água nos campos alagados e sob altas temperaturas, propicia a formação de águas estagnadas, onde o processo de decomposição da matéria orgânica acaba se intensificando, gerando ambientes anóxicos (sem oxigênio) e com elevados teores de gás carbônico e metano, podendo atingir níveis ecotoxicológicos letais. Com a redução do processo de alagamento, estas águas estagnadas acabam sendo carreadas pelos canais de drenagem ao corpo dos rios, ocasionando a morte de peixes pela redução da concentração de oxigênio disponível e, conseqüentemente, deste gás em seu sangue. Com a diminuição de oxigênio no sangue há um aumento da concentração de gás carbônico, ocasionando uma elevada acidose sanguínea e, conseqüentemente, a sua morte.
Não podemos esquecer que estes ambientes deteriorados e insalubres permitem a multiplicação de organismos patológicos, principalmente bactérias, que também podem causar a morte de muitos peixes, que se encontra em estresse fisiológico, como por exemplo, no período reprodutivo.
A mortandade antropogênica (causada pelo homem) não pode ser descartada neste caso. Entretanto, ao monitorarmos as populações de peixes do Rio Negro e a qualidade da água por mais de 5 anos, que resultou na minha Tese de Doutorado na UNESP Rio Claro, não acredito que este fenômeno tenha sido provocado por influências das atividades econômicas da região. A contribuição do planalto adjacente pode ser avaliada; entretanto, a autodepuração do curso d' água, favorecida pelas altas temperaturas nesta época, pela presença de grandes massas de macrófitas (camalotes), pelo grande volume de águas e pela grande distância das fontes poluidoras, são elementos suficientes para descartarmos esta possibilidade.
Também descartaria a hipótese de uma ação toxicológica a níveis subletais que poderia ter deixado os peixes suscetíveis aos organismos patológicos existentes na água, sobretudo neste momento em que os peixes estão estressados fisiologicamente em decorrente do período de reprodução.
Para avaliarmos com mais assertividade, teríamos que analisar o comportamento dos peixes moribundos (vivos e com movimentos limitados). O comportamento dos peixes no momento da "dequada" é muito diferente do comportamento decorrente por "intoxicação", sobretudo por pesticidas. Os procedimentos mais indicados neste caso seria a coleta de sedimentos do leito do rio, sangue, tecidos musculares e o fígado dos peixes moribundos para análise toxicológica - que ao meu ver, o único meio para diagnosticar a causa. A simples análise de água não é o procedimento mais indicado neste caso, pois os elementos tóxicos se depuram rapidamente na água e se acumulam nos tecidos dos organismos aquáticos.
Afirmar que esta mortandade tenha sido causada pelo homem ou por um processo natural ("dequada") é prematura e irresponsável. São necessários novos elementos nesta análise, que por enquanto e até onde sabemos, não estão disponíveis.


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